É por isto que querem a ponte lá na Foz?

O que é um resort e o que trás de bom para o povo do local em Brejo Grande? É por isto que estão pressionando para que a ponte que seria entre Penedo e Neópolis vá para Brejo Grande?
E os nossos políticos, os governos dos municípios de Penedo, Igreja Nova e o governo do estado, os deputados federais, as lideranças, afinal, vão ou não vão tomar posição?
Além do prejuízo ambiental, queremos a ponte porque queremos o progresso não apenas do turismo dos ricos. Queremos transporte para a produção do Platô de Neópolis e do Projeto Marituba em Penedo, para a produção de arroz e da piscicultura. Penedo já é hoje um pólo educacional, queremos a ponte para facilitar e baratear a vida dos estudantes e de suas famílias.
Queremos a ponte sim e devemos lutar por ela. Se as estradas abrem os caminhos do desenvolvimento, as pontes significam a vitória sobre os obstáculos desse mesmo caminho.
Considerada “Berço da Civilização Alagoana”, a “Cidade dos Sobrados”, assim denominada pelo sociólogo Gilberto Freyre, apresenta hoje grande potencial turístico e econômico, tanto pelas belezas naturais quanto pelo inquestionável patrimônio cultural.
Atualmente, Penedo reveste-se de grande importância no desenvolvimento educacional do Baixo São Francisco. A consolidação do Pólo Penedo da Universidade Federal de Alagoas-UFAL, com os cursos de Engenharia de Pesca e Turismo e a implantação do Centro Federal de Educação Tecnológica – CEFET, oportunizando a formação profissional de milhares de jovens dos estados de Alagoas e Sergipe, representa um marco extraordinário para a região. A tão esperada revitalização do Rio São Francisco e a possibilidade de expansão do Arranjo Produtivo Local – APL da Piscicultura, bem como a perspectiva do desenvolvimento na produção do Etanol, haverão de impulsionar a agroindústria.
Neópolis, município fundado com o nome de Santo Antônio de Vila Nova e elevado à categoria de Freguesia em 18 de outubro de 1679, é considerada a capital sergipana do frevo. Situada às margens do Rio São Francisco, a cidade tem uma vista maravilhosa e destaca-se pela potencialidade econômica do Platô de Neópolis, projeto de fruticultura irrigada do Baixo São Francisco que mudou o perfil social da região. O Projeto está com 30% da sua capacidade produtiva, em torno de 50 mil toneladas. Mas a meta é chegar a produzir mais de 250 mil toneladas.
O Platô produz coco, abacaxi, mamão, banana, maracujá, melancia, limão e tangerina. As frutas são comercializadas nos supermercados locais e exportadas desde Pernambuco até a Bahia. Para o total aproveitamento de sua potencialidade produtiva e viabilidade econômica, o transporte tem importância vital

Veja a matéria da Articulação Popular em Defesa do rio São Francisco e ouçam o grito de uma ribeirinha que luta por Penedo e pela sua região.
QUEREMOS A PONTE PARA CRESCER E PROSPERAR. SE A PONTE É PARA O TURISMO DOS RICOS, ELES QUE GASTEM MAIS COMBUSTÍVEL PARA CHEGAR AO PARAÍSO!!!!!!

Entenda, pra não se deixar enganar!!

img 2Bresort 1 - img 2Bresort 1

O que é um Resort ou hotel de lazer? é um lugar de luxo usado para relaxamento ou recreação, situado fora do centro urbano com áreas edificadas, voltados especialmente para atividades de lazer e entretenimento do hospede.

Para quem serve um resort? Somente aos ricos que podem pagar diarias caras que chegam até mil reais por dia para passar feriados ou férias. Geralmente, um resort é uma grande seleção com diversas atividades, como bebida, comida, alojamento, esportes, entretenimento e compras.

A quem beneficia? Somente os donos do hotel lucram com o empreendimento. A construtora NORCON (obra normalmente financiada com dinheiro público), deseja possuir todas essas terras de beira rio perto da Foz do Rio São Francisco para lucrar muito dinheiro. Para isso, eles querem retirar as comunidades deste local, pois os resorts precisam fazer a “limpeza visual” no caminho de acesso dos hospedes de luxo. Eles tiram não somente os pobres de suas casas, mas, o que eles consideram feio. Daí comunidades como Resina, Saramém e Brejao dos Negros são ameaçados de serem retirados deste local.

Como ficam os pobres? Os pobres ficam fora de seus território tradicional. Pois o resort não traz emprego para o povo do local, pois eles usam somente a mão de obra altamente especializada em hotelaria, não se enganem, pois, não serão estes pobre que terão esse emprego, inclusive proibidos de venderem artesanatos diretamente aos hóspedes ou mesmo comidas. O meio ambiente também sofre, com a destruição do ecossistema Manguezal, destruição das lagoas, caranguejos, siris, peixes e pássaros. Os impactos causados ao meio ambiente, como poluição, extração inadequada de areia são alguns dos problemas causados por estes empreendimentos.

Acontece que para construir o resort é necessário licença do IBAMA para atestar a viabilidade ambiental do empreendimento. Precisa que o INCRA resolva o problema das terras das populações tradicionais que aqui exista. Que tem que haver preocupação com a participação efetiva das comunidades atingida opinando sobre esse assunto. Acontece que a NORCON aliados aos latifundiários que se apropriaram dessas terras, aos políticos desta região em busca de enriquecimento, não estão respeitando o direito dessas comunidades tradicionais que dependem do rio, do mar e do mangue para viver.

A terra é do povo de Resina, a terra é do Povo do Saramém, a terra é do Povo pobre Quilombola do Brejão dos Negros, a Terra é do povo de Carapitanga e de todas as comunidades que aqui existe. A terra não é de ninguém, a Terra é de Deus, a Terra é dos Pobres. A Terra é das Populações tradicionais que sempre viveram aqui desde mesmo antes e depois da colonização: são os pescadores e pescadoras artesanais, os descendentes dos negros africanos – o Povo Quilombola. Essas comunidades tradicionais são os herdeiros, deixado por seus antepassados e não podem abrir mão deste direito.

Essas terras têm que ser transformadas não em resort para os ricos se beneficiarem. Tem que ser transformadas em Reservas Agroextrativistas - RESEXs e feita a regularização das terras públicas destinadas às populações tradicionais que aqui existem. Onde o Povo viva e cuide da Natureza, sem cercas e sem medo.

São Francisco Vivo: Terra, Água, Rio e Povo!!
Articulação Popular em defesa do Rio São Francisco

7 comentários 5 de Maio de 2008 às 12:06 Martha Martyres

ISABELLA, uma vítima das paixões humanas

A menina Isabella está morta. Nada vai mudar essa realidade. A dor da mãe e da família, o remorso eterno de seu pai, a cruz da culpa numa mistura de sentimentos apavorantes que tumultuam o espírito da madrasta, nada vai mudar essa triste realidade.
Esse não é um conto de fadas onde há um pai omisso, uma madrasta má e onde no final a bruxa é punida e todos são felizes para sempre. Esta é uma história real.
Isabella é mais uma das vítimas das paixões humanas, desses sentimentos que permeiam os relacionamentos por vezes doentios entre as pessoas.
Ana, a madrasta, não é uma bruxa e nem queria matar Isabella. Queria sim, distância daquela menina cuja presença torturava sua insegurança e seu ciúme. Ana é uma mulher que, como tantas outras, tem dificuldade de aceitar que o homem amado tenha vivido outra vida senão aquela partilhada à vista de seus olhos.
Isabella foi vítima desse tipo de amor: o amor alucinante, dependente, sufocante, destrutivo. Um amor que vacila entre a loucura absoluta e uma felicidade torturante, sem paz, sem perspectiva, sem esperança e sem fé.
Desde o instante em que a primeira notícia foi ao ar, milhões de brasileiros passaram a acompanhar passo a passo o noticiário e a investigação. A verdade é que nenhum de nós acreditou na versão inicial dos fatos narrados pelos envolvidos e familiares que, pouco a pouco, vão-se desfigurando mediante os depoimentos das testemunhas, a perícia e as evidências do caso.
A poucas horas, talvez, do anúncio oficial da polícia paulista do pedido de indiciamento da madrasta e do pai de Isabella pelo assassinato da menina, o Brasil inteiro continua se perguntando o que aconteceu naquele endereço que ficará marcado para sempre pelo sangue de uma graciosa criança que gostava de dançar, sorrir, cantar.
Ficamos observando as informações das perícias e a cada revelação nos perguntamos: O que terá levado Ana a uma atitude tão agressiva? O que desencadeou essa reação? Uma palavra dita? Um gesto? Uma birra infantil? Uma disputa entre os irmãos por um bicinho de pelúcia? Um choro de bebê? Um machucado em um dos filhos biológicos de Ana e Alexandre?
Alguma coisa aconteceu ali dentro que desencadeou uma fúria impulsiva capaz da tentativa de estrangulamento.
Mas, quando Isabella desmaiou, por que a razão não se sobrepôs à fúria?
E depois? Por que Ana não gritou por socorro? Por que Alexandre ao invés de sair com a filha nos braços em busca de ajuda, resolveu joga-la pela janela do quarto simulando um crime praticado por outra pessoa? Que mente é essa que consegue engendrar, tão rapidamente, um plano dessa magnitude envolvendo a carne de sua carne, o sangue de seu sangue?
São realmente inocentes? Quem acredita em suas versões?
Não vai haver respostas. Prisão, indiciamento, execração, psicologia forense, condenação, nada vai responder satisfatoriamente a essas perguntas que estão na cabeça de cada um de nós.
A única certeza que fica é a de que, por sermos humanos, suscetíveis a comportamentos incompreensíveis, devemos orar pelo espírito de Isabella e rogar a Deus que nos dê a sabedoria de não confundir o verdadeiro amor, sentimento maior da humanidade, com o descontrole das paixões humanas obsessivas que compartilham o misterioso binômio crime e castigo.

1 comentário 16 de Abril de 2008 às 17:24 Martha Martyres

A Semana Santa vai morrer?

Fui desafiada por uma amiga de todas as horas: “Martha, haviam quatro “gatos pingados” na procissão do Senhor Morto que saiu às ruas já muito tarde da noite. Não podemos deixar morrer a Semana Santa em Penedo!”
A princípio, confesso, a vontade foi dizer: “E Jesus não já está morto mesmo!”, mas a verdade é que fica um formigamento a não me dar sossego quando se trata das coisas do Penedo. Ela, a minha amiga, tem razão. Há algum tempo vimos percebendo que as celebrações da Semana Santa em Penedo não passam de rituais simbólicos, celebrados para um grupo muito reduzido de pessoas que, a cada ano, vão perdendo o estímulo em participar, manter e repassar essa tradição do povo cristão e, por excelência, do povo penedense, cuja cultura e tradição quatrocentenária serve de referência para as mais eruditas considerações sobre Alagoas e o Brasil.
Vou voltar sim, ao passado! É nele que encontramos a razão de viver e não em um presente inconsciente ou em um futuro incerto.
Penedo, a cidade chamada de “rochedo da fé cristã, desde a sua primeira “paróquia”, o Curato de Santo Antonio (primeiro padroeiro de Penedo), até hoje, com uma Diocese quase centenária, passando pela mudança de devoção para Nossa Senhora do Rosário em consagração pela vitória contra os holandeses em 19 de setembro de 1645, é uma cidade que sofreu mudanças significativas em suas características religiosas materiais, com a construção de templos e imateriais, com suas Irmandades, Ordens, Confrarias e Associações.
Podemos citar, entre tantas, a Ordem Terceira de São Francisco, a Ordem Terceira da Penitência, a Irmandade do Santíssimo Sacramento, Irmandade das Almas, Pia União de Santo Antonio, Irmandade de São Gonçalo Garcia dos Homens Pardos, Confraria da Santíssima Virgem Maria Senhora do Rosário, Irmandade de São Benedito, Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Apostolado da Oração, Pia União das Filhas de Maria, Irmandade de Santa Cruz, Irmandade de Nossa Senhora das Dores, Confraria de São José, Associação dos Santos Anjos, Confraria das Almas, Irmandade das Almas, etc…, etc…, etc…
Quanta riqueza na vida religiosa do Penedo de outrora! Quantas dessas entidades religiosas registiram? Quanto, as poucas que ultrapassaram os obstáculos dos caminhos sinuosos da fé, ainda resistirão?!
Volto a lembrar de minha amiga: “Não podemos deixar a Semana Santa morrer!”. E faço o caminho de volta à infância.
Lembro de minha mãe, do ritual dos horários e das roupas especiais que usávamos para desde o Domingo de Ramos até a Procissão do Senhor Glorioso (essa sim, de madrugada), para participar de todas as celebrações.
Guardo na memória a emoção da Procissão do Encontro, do brilho daquele punhal cravado no coração da Virgem Maria em seu manto roxo e sua fisionomia marcada pela dor de ver seu filho caminhando para o calvário. Ainda soam em meus ouvidos o bater das matracas, tal qual o bater do tambor que empurra os soldados para a guerra. Ali, passei a associar a música não apenas à alegria, mas à dor, à incitação da revolta e do ódio, à morte.
Sentia uma curiosidade mórbida de saber quem, afinal, era Verônica, aquela mulher vestida de roxo, a cor da morte, cujos cabelos escondiam o seu rosto.
Em meus devaneios, achava que tantos homens, tantas pessoas que acompanhavam aquela imagem de Jesus carregando a cruz, podiam na verdade fazer alguma coisa de útil, como por exemplo, aliviar-lhe o peso ou secar suas feridas.
Tinha medo de, nessa época, ir à Igreja de São Gonçalo. Aquelas imagens cobertas com panos roxos, mais do que medo em meu imaginário, impunham-me uma sensação de impotência e um questionamento que me acompanhou a vida inteira, mesmo depois que descobrir Jesus…e Marx.
Venho de uma família católica. Meu avô, Cesário Procópio dos Mártyres, era um homem de fé. Em seu diário, onde escrevia dia-a-dia os acontecimentos de sua amada Penedo, já nas décadas de 40 e 50, ele lamentava a perda de tradições como a Procissão das Cinzas e a Procissão do Fogaréu que haviam em nossa cidade.
As celebrações começavam, na verdade, com a Procissão das Cinzas, na quarta-feira de Cinzas, saindo da Ordem Terceira, à qual ele pertencia, com mais de vinte andores. A Procissão do Fogaréu saía na Quinta-Feira Santa e representava a reconstituição da prisão de Jesus no Jardim de Getsêmani. A imagem do Senhor da Prisão, uma imagem de Roca em tamanho natural que se encontra na Igreja de São Gonçalo, era levada em um andor enquanto o trajeto era feito às pressas, com o povo acompanhando quase correndo, levando tochas e cantando a Ladainha de Todos os Santos.
Penedo, ano após ano, vai perdendo suas tradições. Hoje, o Brasil inteiro vai ao estado de Goiás para ver a Procissão do Fogaréu.
O que aconteceu? Por que as celebrações da Semana Santa perderam seu brilho? Por que as procissões saem tão tarde das igrejas a ponto de os fiéis preferirem rezar em suas próprias casas?
A procissão do Senhor Morto, que em minha infância saía da igreja por volta das sete horas da noite depois da cerimônia de descida da cruz na porta da Catedral, hoje sai no horário em que deveria sair, no Domingo, a procissão do Senhor Glorioso.
E não é apenas a Semana Santa. A festa da padroeira, Nossa Senhora do Rosário, não representa mais tradicional festa de padroeira de qualquer município cristão do interior do Brasil; o dia 13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, quando era realizada uma das procissões mais belas em nossa cidade, passa despercebido.
O que mudou? Mudamos nós, os cristãos? Mudou a Igreja? Mudou a fé? Nossa crenças e convicções? Ou mudaram, lamentavelmente, os nossos líderes?
Ano que vem, se vivas estivermos, minha amiga certamente vai, outra vez, me perguntar: “Nós vamos deixar a Semana Santa morrer?”
E eu, talvez, pense assim: Será que vale à pena lutar? A andorinha está com as asas chamuscadas e seu vôo comprometido. No horizonte, nem sinal da ressurreição da esperança!

2 comentários 27 de Março de 2008 às 17:55 Martha Martyres

OS MORTOS NA INFÂNCIA

Nos último meses temos acompanhado uma escalada de violência contra crianças e pré-adolescentes que deixa atônitos os moradores da antes pacata e ordeira Penedo.
Nessa situação atual o que mais nos causa espanto é que aqui, os casos seguem o índice histórico registrado nos grandes centros: as agressões psicológicas e físicas e a violência sexual é praticada por membros da própria família ou pessoas muito próximas.
Nas ruas, especialmente nas noites cálidas da cidade ribeirinha, invariavelmente cruzamos com crianças e pré-adolescentes que já não cheira cola, mas cheiram a cola, o que é possível sentir a dezenas de metros de distância. A prostituição infanto-juvenil continua manchando a paisagem ornamentada pelas palmeiras imperiais que se enfileiram na orla penedense.
Aos poucos, é possível observar que as crianças abandonadas desta cidade estão em toda parte: nas portas dos supermercados, nos pontos de ônibus, nos bares, nas praças, nas ruas…
E quem são essas crianças? De onde elas vêm?
São filhos abandonados pelos pais e familiares por incontáveis e, às vezes, inconfessáveis motivos.
Filhos de pais pobres que se escondem nas periferias e que não ganham sequer para comprar o pão diário e, também por esse motivo, meninos e meninas saem mundo afora numa tentativa desesperada de sobreviver. São vítimas da indiferença, da irresponsabilidade que se multiplica, da insensatez da procriação irracional.
“Nas grandes cidades, quando uma criança desce para o asfalto, a princípio é apenas mais um “menor abandonado”. Na semana seguinte, ele já arranjou outros companheiros de aventuras e se não é logo arrastado para uma Delegacia de Polícia ou alguma dependência do Juizado de Menores, termina atraído pelos marginais que formam verdadeiras quadrilhas para a exploração desse tipo de criança.”. O trecho do livro A Infância dos Mortos, de José Louzeiro, mostra uma realidade que hoje, infelizmente, não constatamos apenas nas grandes cidades. O livro fala da história de algumas crianças denominadas de “um bando de menores” e do desamor que os acompanha. Pequeninos que, por mais espertos que possam considerar-se, não possuem experiência e acabam, invariavelmente, sendo massacrados e pagando com a vida o amontoado de erros que vêm sendo cometidos pelo que chamamos de sistema.
A criança carente, faminta, drogada, prostituída, abandonada, é uma conseqüência natural da baixa renda do trabalhador brasileiro, produto do subdesenvolvimento da maioria esmagadora da população, seqüela da carência da educação do nosso povo.
Essas crianças são fruto dos dogmas equivocados da Igreja que condena o planejamento familiar, o uso de anticoncepcionais e da camisinha, faz campanha para reformar seus templos e ignora a situação de absoluta degradação da infância e da juventude exterminada nas escadarias seculares de seu patrimônio arquitetônico.
O que vemos no dia-a-dia das cidades, grandes metrópoles ou pequenos vilarejos, é um imenso abismo entre o exibicionismo do poder político e econômico e a mais expressiva miséria que leva à degradação humana.
Em ano de eleições municipais, gastar-se-ão milhões em campanhas políticas em uma verdadeira luta de vida ou morte pelo poder, enquanto as crianças perambulam pelas ruas sem escola, sem saúde, vítimas de lares desestruturados pelo desemprego, pela fome e pela inversão de valores morais que começa nas faixas mais abastadas da sociedade que impõe a tão propalada “opinião pública” como se fosse a mais extraordinária verdade.
Os Conselhos de Defesa de Direitos, Municipais e Tutelares, esvaziam-se na falta de compromisso com a causa e na ilegalidade que sustenta as conveniências políticas e torna suas ações inócuas, se contestadas à luz do direito.
As políticas públicas vão-se reduzindo a “cartões”, às “bolsas”, aos programas chamados de sociais que na verdade escondem a industrialização de uma massa sem qualidade política, sem capacidade de reencontro com a sua consciência crítica.
Nas crianças que cheiram a cola, nas meninas que se prostituem por dois reais na orla da cidade, ainda consigo sentir o cheiro dos sonhos.
Muitos heróis povoam os sonhos infantis e fico pensando que na realidade nua e crua de nosso cotidiano não precisamos de heróis. Precisamos apenas de pessoas com coragem e independência para fazer o que precisa ser feito.
Onde será que elas estão?

Adicionar comentário 11 de Março de 2008 às 17:55 Martha Martyres

Da esperança à indignação.

Nas ruas, na fila do banco, enquanto escolhemos produtos nas gôndolas dos supermercados, no ponto do ônibus ou nos encontros sociais, ouve-se apenas o murmúrio que vem das entranhas de um povo revoltado com a atual situação que envolve uma parte considerável dos políticos de Alagoas.
A voz do povo nas ruas qualifica essa situação de absurda, inaceitável, vergonhosa e tantos outros adjetivos, alguns impronunciáveis.
Estamos vivendo em Alagoas um tempo de muita indignação, mas, por isso mesmo, de profundas mudanças. É importante insistir neste ponto: um tempo de profundas mudanças.
Existe hoje um quase consenso que Alagoas nunca mais será o mesmo depois das denúncias de corrupção que envolvem os deputados estaduais, secretários de estado, prefeitos, vereadores, servidores, policiais e muitas outras “autoridades” alagoanas que durante muito tempo usufruíram de prestígio junto à população a ponto de até se elegerem pelo voto popular.
A indignação está nas ruas, no rosto dos que exigem a cassação dos mandatos dos políticos e a prisão dos envolvidos nessa quadrilha que assalta, há anos, os cofres públicos.
A indignação está nos lares, principalmente naqueles mais humildes onde os discursos das campanhas eleitorais entram como um raio de esperança.
E por falar em esperança, quantas vezes e em quantas campanhas políticas vimos muitos desses que hoje ocupam as páginas policiais pregar honestidade, seriedade, decência, transparência?
Quantas vezes vimos homens de punhos cerrados e erguidos, identificando-se com aqueles que lhes prometiam uma nova vida! Vimos esperança no olhar de mulheres prenhes de fato e de fé, numa resignação divina daqueles que esperam pela vitória final.
Agora, a indignação tomou o lugar da esperança e da fé e está nas ruas, nos lares, nas filas de desempregados, nos campos, nos corredores dos hospitais, na violência das ruas, na miséria e na fome que poderiam ser combatidas com programas financiados pelos duzentos e oitenta e tantos outros milhões roubados do povo alagoano.
As denúncias de corrupção geram protestos, revolta, mas é preciso lembrar que estamos vivendo, também, um tempo de liberdade, de democracia. É preciso não esquecer que as denúncias estão ao alcance da sociedade em todos os meios de comunicação e que a informação é a única forma de constranger os desonestos.
Estamos em um ano de eleições. Dentro de poucos meses os ilusionistas estarão novamente nos palanques na tentativa de ludibriar os eleitores com suas promessas mágicas e seus discursos demagógicos. Agora, é a hora de o eleitor exigir a inversão do ônus da prova. Nada de cobrar de nós a responsabilidade de escolher bem e blábláblá…, os políticos, nessa eleição, principalmente esses que são freqüentadores assíduos das páginas policiais, terão que provar que são inocentes e, de preferência, honestos. E sabem o que diz a voz do povo nas ruas: Essa é uma missão impossível!

1 comentário 5 de Março de 2008 às 16:13 Martha Martyres

A Fase dos Abraços

Os feiticeiros do grande logro chamado “justiça social”, estão, mais uma vez, excitados no terreiro.
De repente, como se saídos das profundezas da terra, de um sono restaurador, surgem os candidatos e os discursos que visam a criação de um programa que “liberte o povo da opressão política e econômica”e que lhe dê efetivas condições de progresso material e cultural. Ainda mais que de repente, todos aqueles que receberam do povo um mandato e que deveriam ter na palavra e nas ações os instrumentos para o exercício de sua nobre missão, parecem acordar do vantajoso sono, que para alguns, já dura há alguns anos.
Desta vez, mais uma vez, estão receitando doses cavalares de “boa” administração (para eles próprios) e “ajuda” aos necessitados, a pretexto de introduzir mágicos efeitos saneadores sobre um caos que não tem fronteiras: segurança, educação, saúde, respeito e dignidade para o cidadão, valores morais, família… tudo o que está contaminado pela corrupção que plantou raízes profundas na terra de Graciliano Ramos.
Diante de uma população cada vez mais pobre, erguem-se vozes eloqüentes e hipócritas na tentativa de, mais uma vez, ludibriar esse povo sofrido e cansado de esperar que os homens públicos desse país desgovernado comportem-se dignamente.
Fala-se na formação de grupos suprapartidários que têm como objetivo transformar cidades, o estado e o país. Fala-se na escolha de candidatos de consenso que estejam dentro de critérios estabelecidos pelos “grupos”. Os critérios: para o povo, honestidade, seriedade, compromisso com a população; para os “grupos”: esperteza e o compromisso de ratear os recursos que conseguirem desviar das políticas públicas. Ah!, pode ser até da merenda escolar de crianças famintas.
Chegou a hora. Nas ruas, o povo, ingenuamente, responde às pesquisas que em sua grande maioria são fraudadas, discute sobre esse ou aquele candidato, até se indispõe com o vizinho, o compadre, o colega de trabalho. Tudo pela política. Nos bastidores, fazem-se capitulações desonrosas e adesismos indecorosos.
Chegou a hora. Daqui a alguns meses vamos presenciar a fase mais aguda dos abraços. Alguns candidatos vão exibir soluções para tudo e para todos. De casa em casa, eles vão aspirar o hálito de cebola do eleitor, apertar a mão do vendedor de peixe, comer saburica com farinha na cozinha humilde da dona-de-casa (e até fazer questão de dizer que é seu prato favorito). É hora dos candidatos vestirem roupas simples e calçar sapatos furados e ao invés do Armani usar Leite de Rosas para ter cara e cheiro de povo.
Chegou a hora de analisarmos o modo de agir de uma “elite”, essa sim, elite, que se socorre de manifestações exteriores para compensar o eleitor e, num bote de efusão, com o tilintar do quizo, selar um compromisso com aquele que vai empurra-lo na direção desejada: o eleitor.
É uma pena que alguns desses contratos, anteriormente firmados, tenham sido tão vergonhosamente desrespeitados. O povo ainda é muito ingênuo e vai receber, ingenuamente e com festa, muitos desses políticos corruptos que enriqueceram ilicitamente no poder e estão desesperados para voltar porque não sabem e não podem viver sem as “facilidades” que ele proporciona.
De qualquer forma, ainda nos restam três coisas a fazer: ter esperança, lutar por dias melhores e assistir maravilhados ao curioso desfile de abraços na maratona pelo poder.
Ah! Especialmente para o leitor, aquele abraço!

6 comentários 7 de Janeiro de 2008 às 16:57 Martha Martyres

Quem será o próximo?

Recolham-se todos os cardápios de todos os restaurantes, bares, lanchonetes e similares da tradicional, histórica e turística cidade do Penedo, Patrimônio Histórico Nacional.
Fechem-se as portas, recolham-se as mesas, cadeiras, sombreiros. Desliguem o som, ou melhor, toquem a marcha fúnebre dos sepultamentos gloriosos.
Penedo está prestes a recolher-se ao comando da insanidade!
Quem será o próximo?
Vamos imaginar que, de repente, todos aqueles que direta ou indiretamente estiverem ligados a alguma denominação gastronômica, sintam-se ofendidos ou injustiçados.
Deixaremos de experimentar as delícias de uma culinária que é chamariz turístico em várias partes do Brasil e do mundo, sob pena de prisão e desonra.
Comer um filé à Chateaubriand? Jamais! É correr o risco de os descendentes de Assis Chateaubriand nos submeterem a chantagem, já que o velho Chatô deve ter deixado valorosos ensinamentos!
Pedir um Bacalhau à Gomes de Sá? Ora pois! Nossos compatriotas portugueses vão enviar novas caravelas para nos espoliar ainda mais destruindo o pouco de Mata Atlântica que nos resta e as jazidas de nossas Minas Gerais.
Saborear um Maurício de Nassau? Impensável! Da Embaixada Holandesa certamente advirá um processo por damos morais e a alegação de que o heróico conquistador era espada!
E os times?! Imaginem se aqueles cartolas corruptos do Corinthians ficam sabendo que aqui, no Laçador, tem sanduiche com o nome do Timão! Eles, que burlaram até a KGB iriam querer, no mínimo, lavar dinheiro com catchup e mostarda.
Ninguém mais se atreveria a comer o carangueijo do Jorjão, o mocotó da Marlene ( nem o governador que gosta tanto!), a galinha do Galego,o jacaré do Babalú, o filé de peixe Dalila, o tambaqui do Luizinho!
Tudo isso seria muito engraçado, cômico, hilário, numa cidade histórica e cheia de tradições e que convive com singularidades denominativas como Rua da Priquita, Beco do Cabula, Cacete Armado, Beco da Goiaba, Ilha do Jegue e tantos outros, não fosse a atitude autoritária, insana e descabida que neste domingo levou o proprietário da Lanchonete Mister Burger á prisão.
Autoridade. Segundo o Aurélio, o dicionário, o pai dos burros como chama o povão, significa direito ou poder de fazer-se obedecer. No entanto, na mesma fonte de pesquisa, é possível observar que está autorizado, o que significa poder, aquele que é digno de respeito, obediência e crédito.
Autoridade é uma coisa. Autoritarismo é outra.
Afinal, não chegou a hora de nos perguntarmos porque temos tanto medo de autoridade? Afinal, quem é autoridade? Autoridade é aquele ou aquela a quem nós pagamos através de nossos impostos e que através do poder garantido a nós na sagrada Constituição da República está investido de um poder que serve para defender e garantir os nossos direitos proporcionando ao cidadão a garantia e os rigores da lei. Nem mais nem menos.
Desde o início deste ano (e eu não quero, de forma alguma atribuir esses episódios ao início de um novo governo, até porque votei, fiz campanha, pedi voto e acredito no extraordinário caráter democrático do governador Teotônio vilela), que acontecem fatos no seio de nossa comunidade que carecem de uma profunda e desapaixonada reflexão, especialmente no que diz respeito à segurança pública e, em especial, ao mister desempenhado pela Polícia Militar de Alagoas no nosso dia-a-dia.
A gloriosa Polícia Militar de Alagoas não merece que seu conceito, sua missão institucional, sua dignidade e o caráter e a dignidade pessoal dos que detêm suas patentes sejam avaliados com base em um cardápio de lanchonete que existe há doze anos na cidade e que nunca, repito, nunca, qualquer indivíduo são, militar ou civil, tenha-se sentido ofendido, desrespeitado ou desautorizado na sociedade.
O fechamento da lanchonete Mister Burger e a prisão de sue proprietário determinados pelo comandante do 11º Batalhão de Polícia Militar em Penedo por não ter recolhido os cardápios que contêm patentes de diversas forças denominando sanduíches é uma atitude da qual não tenho lembrança sequer nos tempos da ditadura em que se prendia, batia e arrebentava sem motivo.
“ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei;” é o texto do inciso LXI do artigo 5º da Constituição Federal. A Constituição foi violada em Penedo. Os direitos e as garantias individuais e coletivas da sociedade penedense vêm sendo vilipendiadas dia após dia por atitudes que só a psicanálise pode explicar.
No governo que se propõe a percorrer os caminhos da “Pregação da Liberdade”, do grande defensor do cidadão brasileiro e da democracia, do Menestrel das Alagoas, ninguém está seguro.
Quem será o próximo?
Com a palavra as autoridades, ou melhor, os que estão autorizados porque atendem aos requisitos do respeito e do crédito.

8 comentários 8 de Outubro de 2007 às 16:59 Martha Martyres

O Porquê de Escrever

Dois fatores fundamentais contribuíram para que eu aprendesse a escrever: a paciência de Tia Crizantina Espinheira, na Escolinha da Casa São Francisco do Convento de Santa Maria dos Anjos e o carinho de minha mãe, Dona Lourdes, que segurava minha mão e a conduzia pelo que mais tarde seria a minha própria vida. Do meu pai, José Vécio, lembro a exigência: escrever bonito, com letras bem desenhadas e em vários estilos. A letra foi uma das marcas e uma das coisas mais bonitas que ele deixou.
Naquela época, no entanto, jamais imaginei que escrever, brincar com as letras e as palavras, fosse se transformar em uma das coisas mais importantes de minha existência.
É escrevendo, manchando a brancura e a virgindade do papel que eu me encontro, de preferência, nas madrugadas, quando o silêncio desarma os sinais de contramão das minhas estradas.
É escrevendo que eu alcanço espaços e neles coloco minha alma e meus sonhos, vencendo o estado de demência provisória provocado pelas paixões. É quando eu consigo retratar, fielmente, minha solidão e me revelo exatamente como sou.
O papel tem sido o meu mais fiel companheiro, cúmplice das minhas contundentes verdades. Escrevendo sobre o amor, a paixão, a violência, a sobrevivência, a política, crianças abandonadas ou sobre a inexorabilidade da vida, é o papel quem tem estado sempre ao meu lado, partilhando a determinação de abrir a trilha, a cotoveladas se preciso for. É ele quem me ajuda a resistir quando me inclino a pedir ajuda àqueles a quem devo proteger, enfrentando o julgamento dos homens e a prepotência dos poderosos. A ele, o papel, posso me entregar sem o medo de me tornar vulnerável ou ser traída na sublimidade dos meus propósitos.
Escrevo para aprender a ser gente. Para me fortalecer quando tiver que lutar contra o desgoverno do destino, para continuar na busca interminável do absoluto.
Acompanhada do papel e armada com meus sonhos, talvez, quem sabe, numa dessas madrugadas, eu encontre a essência da vida.

3 comentários 24 de Setembro de 2007 às 16:05 Martha Martyres

EPITÁFIO

A bailarina inanimada e brilhante da minha caixinha de música dança, indiferente, ao som de uma sinfonia que não consigo identificar. Foi acionada pela mão trôpega que busca um objeto seu na mesa de cabeceira nessa estranha necessidade de sentir sua presença.
É madrugada, uma madrugada fria, longa e leviana, dessas que nos desnuda e sobrepõe os sentimentos à razão.
Penso em você, inerte sobre aquele volante; em seu coração explodindo dentro do peito onde tantas vezes adormeci, esfacelando-se diante do inevitável.
Penso em seu corpo imóvel, frio, enrijecido pela ação inexorável da natureza.
Na escuridão do quarto ainda não vencida pelos raios do sol, abraço meu próprio coração. Sua presença está ali, mais viva do que nunca, muito mais do que na última vez em que olhei nos seus olhos, ouvi sua voz e senti a textura de sua pele.
Choro de saudade, de dor, de pena de mim mesma, pela emoção que me toma cada vez que me perco nas conjecturas do que poderia ter sido e não foi.
Sinto-me só, absurdamente só. Estranhamente inteira, paradoxalmente lúcida.
Nas madrugadas costumo dar de cara comigo mesma, sem o peso da necessidade hipócrita de viver e conviver com pessoas às quais amo, admiro ou tolero e, às vezes, nem tanto!
Nas madrugadas, posso experimentar espaços e sentimentos sem a racionalidade que por vezes me oprime e a objetividade que me sufoca.
Penso na incontrolável necessidade de independência e liberdade e me pergunto do que elas me valem nesse momento.
Penso nos caminhos que o destino encarregou-se de traçar. Penso em você, nos momentos em que conjecturamos sobre a o universo e as suas possibilidades, sobre a êssencia das coisas e das pessoas. Lembro Augusto dos Anjos e seu poema preferido:
“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Sinto-me INDOMÁVEL, como você me definia. Do poema que originou o nome da Manchete.
“Minha alma é um cavalo selvagem
Correndo em disparada pela campina,
Sem sentido de direção.
Não tem raízes e está só,
Na imensidão da natureza.
Minha alma não tem argumentos
E nem razões;
Guia-se apenas pelo instinto,
Pelo cheiro do vento, da terra
E vai galopando a vida,
Sem esporas e sem rédeas.
A minha alma é livre, e, no entanto,
A mordaça do sistema aprisionou meu corpo
E meu cérebro.
E é por isso que a minha alma galopa
E meu coração escreve.”
Penso no amor. Penso nos homens que amei e me pergunto se amei esses homens ou a luta que imaginei ao lado deles. Um homem que me oferecesse partilhar com ele um grande projeto, eu o seguiria até o final do mundo. Não o homem. O projeto.
Penso em Deus e tenho vergonha de lhe pedir ajuda. Deus deve ser o inferno! Toda a esperança, todos os pedidos, todo o amor da humanidade, suas expectativas, tudo sobre os seus ombros. Que peso!
Somos todos egoístas. Estamos sempre pedindo a Deus. Seja lá o que for que pedimos, mas estamos sempre pedindo, pedindo, pedindo… nunca lembramos de partilhar com Ele as nossas alegrias, só os sofrimentos. Isso é amoral!
Penso na vida e fico imaginando quantos agonizam nesse momento, à beira da morte, e que não viveram. Não deixaram registros, não exploraram as emoções, não sonharam porque imaginavam que aqueles que têm todos os fatos estão com a razão. Nos braços da morte, só os sonhos nos acompanham. Os fatos ficam por aí e encontrarão companhia entre os que resistem aos sonhos e por isso mesmo não têm vida.
Penso no quanto o amei. Amei você ou o amor? Será que amei sua força por desprezar a fraqueza? Sua coragem, por abominar a covardia? Sua capacidade de vibrar com uma gota de sangue e emocionar-se diante de uma gota de orvalho numa pétala de rosa ou o sorriso de uma criança? Amei você ou amei o sentimento, a emoção? Agora não importa.
Você está presente como nunca em minha vida. Está em todos os momentos, em todos os meus sentidos, numa história em que a morte, mais uma vez, arvorou-se do direito de escrever o capítulo final.
O que sinto agora é uma saudade sem a esperança da chegada. Uma dor sem conforto. Tenho a ilusão de sentir seu cheiro. Posso ouvir o seu caminhar, o som de seus passos cadenciados e firmes, seu rosto moreno avermelhado pelo sol das diligências e vaquejadas, o sorriso escancarado, por vezes irônico e gozador. O brilho e a força do seu olhar escuro e profundo como um abismo.
Amei. Amei, sobretudo, os nossos grandes encontros e desencontros, a tristeza da impossibilidade, o gosto das despedidas, a esmagadora sensação da saudade. Amei os retornos, as reconciliações, a luta que imaginei ao seu lado.
O barulho da vida lá fora está me chamando. Preciso retomar minha rotina. Centenas, milhares de pessoas até, esperam pela minha voz, que precisa ser firme e transmitir as mensagens, as críticas, mas acima de tudo força, esperança, otimismo e alegria.
As notícias esperam por mim.
Você, hoje, mais uma vez, é notícia, mas a manchete emudeceu a minha voz.

” Parem os relógios
Cortem o telefone
Impeçam o cão de latir
Silenciem os pianos e com um toque de tambor tragam o caixão.
Venham os pranteadores
Voem em círculos os aviões escrevendo no céu a mensagem:
“Ele está morto”
Ponham laços nos pescoços brancos das pombas
Usem os policiais luvas pretas de algodão.
Pensei que o amor fosse eterno, enganei-me.
As estrelas são indesejadas agora, dispensem todas.
Embrulhem a lua e desmantelem o sol
Despejem o oceano e varram o bosque
Pois nada mais agora pode servir.” *
* Funeral Blues

4 comentários 5 de Setembro de 2007 às 17:24 Martha Martyres

PARA ENTENDER OS LOUCOS

Loucos necessitam da loucura para se justificar, para se realimentar. O paranóico que acusa a todos à sua volta de paranóia, está apenas criando ambiente e clima onde sua enfermidade torna-se legitimada e até mesmo necessária. Até sua irritação só se manifesta diante da irritação do próximo. Qualquer reação que fique enrustida será imediatamente copiada.
Bem, não quero e não vou fazer uma conferência sobre os mistérios da alma humana porque não tenho autoridade para isso, mas me refiro a determinados episódios que exercem sobre certos espíritos uma influência doentia.
São essas tais situações externas, dramatizadas pela angústia, pela insegurança, pela prepotência e pela opressão que mudam o curso da história de uma cidade ou de uma comunidade.
Vamos considerar como exemplo o caso da Polônia. Lembram do sindicato Solidariedade? Era um sindicato formado por mais de 10 milhões de membros. Era um movimento não violento que tentava obter através de greves e manifestações pacíficas uma abertura no rígido regime imposto pelo socialismo soviético. Então, por que o governo soviético da época, através do exército polonês, criou todo aquele clima de neurose e terror na Polônia e que repercutiu no resto do mundo? Porque em um sistema repressivo não se correm riscos desnecessários. Um regime autoritário não sabe manter uma negociação com um movimento não violento sem que para isso deixe de ser autoritário.
Se um ditador senta à mesa de negociação, deixa de ser ditador. Se os ditadores pretendessem fazer política, não seriam ditadores. Se um machão avaliasse que existem outras formas de manter uma relação com uma mulher, não seriam machões. É aquela velha estória de que bandidos estão sempre armados, com o dedo no gatilho.
Analisemos o governo atual. Anos atrás, aqueles que hoje são governo invadiam nossas casas dizendo-se acuados, perseguidos, injustiçados, e armaram novas regras para o jogo. Hoje, preocupados com o esfacelamento do próprio governo, com a prática corriqueira daquilo que eles próprios condenaram a vida inteira, tentam, desesperadamente manter o governo e sobretudo o poder. Agora são eles que acusam, encurralam e perseguem.
O nosso governo sabe fazer o jogo. O nosso governo exacerba ao ânimos porque somente nessas condições frenéticas tem a justificativa para agir com insanidade.
Assim é em determinados setores de nossa sociedade e, principalmente, como agem determinadas pessoas que, pela força dos cargos habituaram-se a ser obedecidas e que se auto-intitulam de concentradores de toda a honestidade do mundo.
Quando um louco precisa de um conflito para firmar-se, fatalmente ele consegue deflagrar esse conflito, principalmente quando seus parceiros nesse conflito estão sobressaltados com sua incapacidade de negociar com os contrários.
Os que abocanham o poder, seja no país, em casa, no trabalho, na escola ou no hospital, não admitem alterar a situação abrindo mão involuntariamente de seus benefícios.
Todo processo ditatorial contém dentro de si o germe dessa fantasia histérica de perder as rédeas do jogo.
Entender pessoas hoje em dia com o auxílio da psicologia é relativamente fácil. Entender o óbvio também não é difícil. A alma coletiva não difere muito da individual. Pessoas, partidos, municípios, estados, entidades e nações são regidos pelos mesmos mecanismos e leis.
Um filósofo francês dizia que a história é psicologia aplicada. Sendo assim, pode-se até não gostar de política, mas fica relativamente fácil perceber os loucos propagando suas loucuras.
Em Penedo, basta olhar em volta!

5 comentários 3 de Agosto de 2007 às 15:30 Martha Martyres

Publicações anteriores


Categorias

Links

Calendário

Julho 2008
S T Q Q S S D
« Mai    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Minhas Publicações Recentes

Publicações por Mês

Estatísticas

Meta