O Mestre Cesário e Sua Obra
Ernani Méro
“Pouco se tem falado sobre Cesário Procópio dos Mártyres, o valor maior que já surgiu em Penedo na arte de esculpir na madeira e decorar. Foi um gênio e não seria exagero dizer: “Cesário, o Aleijadinho Penedense.”
Eu era criança e já ouvia falar em Cesário. Aos 15 anos ingressei, e com que entusiasmo o fiz, na Ordem Terceira de São Francisco. Era a noite de 8 de Dezembro de 1940, quando das mãos de Frei Boaventura O.Fm, recebia o burel franciscano. Tudo ali me impressionava, todavia, a figura de asceta de Mestre Cesário calou em meu mundo de jovem. Comecei a admirá-lo e cada palavra sua, cada gesto tocava de cheio o meu ser. Cesário foi um exímio artista, um homem de oração, simples, humilde, grande sob todos os aspectos, culto, portador de um poder de criatividade ímpar. Podemos dele afirmar: “era um santo homem”.
Afirmo ser Cesário o “Aleijadinho Penedense”, porque não se contentou apenas em ser um copista esmerado, foi muito além: era um criador de estilo e o fez dentro da linha de uma gramática Barroca, destacando-se várias esculturas em madeira, ocupando lugar de destaque o Bom Jesus dos Navegantes de Penedo. Essa monumental escultura que saiu do seu cinzel privilegiado, traz não só a habilidade do seu manuseio como também foi um tipo por ele imaginado, bem conforme o sentir da Sagrada Escritura. Cesário foi de fato um gênio, pouco conhecido, pois a sua humildade não dava espaço para publicidades. Ele existiu fisicamente e continua vivo em nossa memória e na majestade de sua obra.
Cesário Procópio dos Mártyres era filho de José Procópio dos Mártyres e dona Emília de São José dos Mártyres. Nasceu em 26 de fevereiro de 1884 na propriedade de seus pais entre Penedo e Ponta Mofina. Ainda criança já demonstrava pendores pela arte de esculpir, pois, usando a casca da Cajazeira ir esculpindo bonecos. Não estava destinado ao serviço da roça, um nobre destino o aguardava: ser escultor.
No dia 31 de janeiro de 1898, Cesário já residia em Penedo e entrou para a oficina do Mestre Júlio Phidias, situada na Praça Jácome Calheiros, antigo Largo de São Gonçalo do Amarante, depois Praça Valentim Rocio.
O seu progresso foi rápido em assimilar os ensinamentos do Mestre Phidias. Diante do que acontecia com Cesário, o seu irmão que residia na capital federal, José Procópio dos Mártyres, enviou todo o material para que ele montasse sua oficina que foi na Rua 7 de Setembro, antiga Rua do Convento, nos baixos de um velho sobrado. Isso aconteceu em 1904, todavia, Cesário continuou a trabalhar com o seu Mestre Júlio Phidias até 1910.
Cesário em sua mocidade foi atuante na sociedade penedense. Chegou a ser membro do Clube Carnavalesco Agonia, pertenceu à Sociedade R. F. Flor da Mocidade Penedense e do Montepio dos Artistas. Era um jovem elegante e não deixava o fraque e a cartola nos encontros sociais.
O Cesário que conheci e passei a admirar era muito diferente do jovem. O uso do fraque e da cartola cedeu lugar a vestes humildes, a postura de asceta, ao andar firme, meio inclinado em um viver absorto na contemplação de Deus. Cesário foi um artista e um santo. Não temo fazer essa afirmativa.
Em 1929 Cesário recebeu encomendas da Casa Luneta de Ouro, do Rio de Janeiro. Prontas, foram enviadas e bem aceitas, tendo como resultado um convite para se deslocar para o Rio de Janeiro. No dia 12 de Março de 1929, Cesário embarcou no navio Lins de Vasconcelos, saindo do porto de Penedo com destino ao Rio de janeiro. Lá residiu no bairro de São Cristóvão, juntamente com os familiares do mestre marceneiro, também penedense, Gerson Espinheira. Foi trabalhar na Rua do Arcos, conseguindo lugar para seu filho José Vécio. Ali, Cesário fez várias obras de escultura na madeira, destacando-se São João Evangelista que se encontra em uma igreja no bairro de Botafogo. Essa imagem foi exposta em vitrine da loja A Luneta de Ouro na Rua do Ouvidor. Um fato muito revoltou ao Mestre que, mesmo sendo um homem de virtudes, vez por outra deixava extravasar o seu temperamento colérico. Os termos do cartão que foi posto no pedestral da escultura revoltou ao nosso Cesário: “ Escultura feita por escultor alagoano”. Cesário não podia permanecer no Rio de Janeiro. E certa feira ele me segredou: “ …voltei, pois a minha arte não podia ser empregada para pintar apenas imagens industrializadas em gesso.” Cesário era um escultor fiel a uma escola Barroca. O seu estilo inspirado na gramática Luso-Brasileira não aceitava a deturpação de seu potencial criativo. Cesário era um gênio. Ele foi, afirmo, o Aleijadinho Penedense”
Cesário volta para Penedo. Aqui, ele deixara um discípulo que soube beber na grandeza de sua arte os princípios que o fizeram, também,um grande escultor e pintor: Mestre Antonio Pedro dos Santos. Esse notável ”artesão” que assimilou o estilo do Mestre em sua linha barroca é uma glória para Penedo. Todavia, faço uma distinção entre Cesário e o meu amigo Mestre Antonio Pedro. Cesário não foi apenas um escultor genial, ele teve o poder de criar tipos escultóricos, como é o caso do Bom Jesus dos Navegantes, imprimindo-lhes toda a pujança de seu poder de criatividade. Antonio Pedro é um grande escultor, mas, ao nosso ver ele parou como um fiel copista, onde entra a rara habilidade de suas mãos geniais em esculpir, panejar e estofar. Não conheço uma obra de escultura de sua lavra que traga a marca de seu potencial criador.
São dois grandes mestres, dois gênios que merecem nosso respeito e carinho, porém, entre os dois existem diferenças. O mestre Cesário e seu discípulo Antonio Pedro construíram em Penedo uma “civilização artesanal” dentro da linha do estilo da arte Luso-Brasileira.
Falamos que Cesário criou tipos. Já em nosso modesto trabalho – História do Penedo – publicado em 1974, fizemos uma homenagem ao Mestre Cesário Procópio dos Mártyres. São inúmeras as obras de Cesário, todavia, o Bom Jesus dos Navegantes tem uma história.
A Festa dos Navegantes era feita na igreja franciscana de Nossa Senhora dos Anjos. A imagem que saía em procissão era o cristo Agonizante que se encontra na sacristia do Convento. Em 1914 foi feita a última festa no convento, pois, ao recolher da procissão, o superior decidiu que não mais permitiria a festa no convento. O Senhor Antonio José dos Santos, conhecido por Antonio Peixe-Boi, aflito, procurou o Mestre Cesário e pediu que esculpisse uma imagem para as procissões. O Mestre aceitou o desafio e com espírito muito ligado aos fatos das Sagradas Escrituras aliado ao seu poder de criatividade esboçou o tipo de imagem. Surgiu essa obras maravilhosa que é o Bom Jesus dos Navegantes.
No entanto, houve um acontecimento bem interessante. Faltava a madeira. Cesário, muito compenetrado com a sua obra andava à procura de um pau que se prestasse para esculpir a imagem. Visitando seu amigo Mestre Manoel Temístocles, marceneiro, encontrou a madeira ideal. Tirou um pedaço e esculpiu a monumental obra que é o Bom Jesus dos Navegantes todo inspirado na realidade bíblica. Todavia, aquela madeira estava destinada pelo Mestre Temístocles para fazer um “cavalinho”, ou seja, um carrossel. Daí em diante acontecia o mais interessante: o Mestre Temístocles, ao encontrar Cesário, dizia: “você fez o Bom Jesus com a madeira do meu cavalinho, logo sua imagem é irmã do meu cavalinho”, no que Cesário, homem de fé, formação religiosa profunda, respondia: “não, a imagem do Bom Jesus dos Navegantes é feita de um pedaço de cedro que serviu para fazer o seu cavalinho”.
O fato é que a escultura é de uma beleza encantadora, cujas linhas anatômicas assumem uma total perfeição. Foi concluída em 1915.
Cesário foi um gênio. Basta contemplarmos suas esculturas. São várias, entre elas destacam-se: Bom Jesus dos Navegantes de Penedo, Neópolis, Piaçabuçu, Própria, Pontal da Barra, Jaraguá. Senhor Morto e Senhora Divina Pastora de Junqueiro, Senhor Morto de Neópolis, São Miguel Arcanjo que se encontra na Igreja das Correntes de Penedo. Os crucifixos de laranjeira do Convento de Penedo e tantas outras escultura espalhadas por esse Brasil.
No dia 5 de janeiro de 1956 faleceu esse notável gênio. Compareci ao seu sepultamento. Morria o Mestre. Desaparecia o “Aleijadinho Penedense”. Permanecem a suas obras. Em janeiro de 1915 surgiu a maior criação do seu cinzel: Bom Jesus dos Navegantes. Em janeiro de 1956, Cesário, como um santo, entra para a eternidade. Nossa homenagem ao escultor e gênio. ”
Nota: Esse texto foi escrito pelo historiador penedense, Professor Ernani Mero, em folder produzido pelo Governo Guilherme Palmeira para homenagear o escultor Cesário Procópio dos Mártyres na Festa do Bom Jesus dos Navegantes de Penedo, em 1980, gentilmente autorizado por seu filho Carlos Méro.
1 comentário 6 de Janeiro de 2007 às 10:48 Martha Martyres