O Mestre Cesário e Sua Obra Ronaldo Lopes no DER

Olhar Sobre o Rio

7 de Fevereiro de 2007 às 14:15 Martha Martyres  | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 159

O sol se põe em terras sergipanas e eu me debruço sobre a Rocheira olhando o rio. É fim de tarde e começo de cheia. A água desce murmurosa e segue caminho para o mar em sua periódica inundação. Não importa, nesse caminhar, o que digam os técnicos e tecnocratas. Se há comissões que definem o tamanho de sua vazão, não podem impor a cor das suas águas e nem a velocidade com que percorre o caminho. Não importa o tempo de recorrência. Importa o agora, o presente, o instante.
Lanço meu olhar além da linha visível, sonho com o rio de minha infância.
São Francisco da minha vida! Vejo-me criança, peneira na mão: “cai cai tanajura na panela da gordura”. Vejo-me a percorrer a margem do rio, na Saúde, pescando de jereré, “ariando” panelas, colocando roupas para “quarar”, pulando das canoas que gentilmente permitiam que as fizéssemos de trampolim, nadando em braçadas largas para o estado de graça de voltar ao útero de minha mãe.
Esse é o meu rio! Brinquedo da minha infância, amigo da adolescência, companheiro da maturidade.
Em meus devaneios, vejo as canoas singrando as suas águas. Posso sentir o cheiro dos bolinhos fabricados de massa de pó de arroz, do pirão feito com farinha, para pescar piabas; ouço o chiado dos cutelos raspando as tabocas para fazer os covos e meu estômago se anima ao captar o aroma do camarão torrado e da farinha quentinha no forno da casa de farinha.
Volto aos barrancos, à curva do rio, ao refúgio dos peixes. Xiras, traíras, piranhas, piaus, mandins, mussuns…e como se fizéssemos um pacto de sangue, o rio incorpora-se ao meu corpo, entranha-se na minha alma.
Meu coração desanda o ver o rio. Ora sou remanso, ora sou correnteza, ora sou água ou nem sei quem sou…
Ouço o ruído das águas correndo, os estalos da vegetação, o assobio dos pássaros.
E agora ele vem barrento, carregando consigo as cores de suas margens desmatadas pela ignorância e ambição dos homens. O rio não é como o homem, que tem como optar. Ele segue e deságua. Assinala sua presença em aflições e bênçãos, mas é fiel ao seu povo.
A enchente é o descanso do rio em seu leito e nele traz corpos colados ao seu ou que aguardam a hora de entrelaçar-se. É o seu leito que se abre, alaga o sertão, arrasta erva braba e mandacaru, traz ninho de cobra e tatu.
Suas águas vão passando. Carregam troncos, baronesas, árvores mortas, e o céu chora de emoção contribuindo para sua grandeza.
E o povo de suas margens emudece diante de sua força, faz festa, mede minuto a minuto a subida de suas águas. Os mais afoitos se alegram e se transformam na criança que fui. Pulam do cais, das canoas, experimentam a sensação sublime de flutuar sobre ele.
As cidades, os lugarejos vão ficando para trás e, de repente, lá na foz, o mar abre os braços numa demonstração de incontestável afeto.
Esse é o meu rio que busca revitalização e respeito e que, numa demonstração de solidariedade, vem trazer fartura para o povo que mesmo em suas margens tem fome e sede. Meu rio, nosso rio que vem mostrar aos homens que nenhum tipo de poder ou quantidade de dinheiro podem ser mais fortes do que a fé do povo e a força da natureza.
Quando as águas baixarem, São Francisco, o rio, terá cumprido o seu destino na integração nacional ofertando vida a milhões de brasileiros. São Francisco, o santo, vai descer do altar lá na Serra da Canastra e percorre-lo, até a foz, recontando os animais, ajuntando os que se perderam, curando os que ficaram feridos e colhendo ramos de arnica e carqueja, que são remédios para todos os males.

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7 Comentários Faça seu próprio

  • 1. cleonice cerqueira  |  11 de Fevereiro de 2007 às 22:39

    Fiquei profundamente emocionada ao ler seu artigo sobre o rio. E, me vi também,menina , na rua do Pescador, nadando, pegando saburica, pescando com azol que eu mesma preparava com linha de nylon e chumbo. Quanta saudade me deu ao me lembrar dessas coisas. Fui feliz e ainda sou por ter vivido essa beleza. Hoje, minha historia de vida é toda recheadfo dessas recordaçoes. Daqui , de Recife onde moro agora , quero lhe agradecer por essas suas belas lembnranças que fez vir à tona as minhas e lhe abraçar como se abraça uma irmã.

    Cleonice

  • 2. cleonice cerqueira  |  11 de Fevereiro de 2007 às 22:43

    Fiquei profundamente emocionada ao ler seu artigo sobre o rio. E, me vi também,menina , na rua do Pescador, nadando, pegando saburica, pescando com azol que eu mesma preparava com linha de nylon e chumbo. Quanta saudade me deu ao me lembrar dessas coisas. Fui feliz e ainda sou por ter vivido essa beleza. Hoje, minha historia de vida é toda recheada dessas recordaçoes. Daqui , de Recife onde moro agora , quero lhe agradecer por essas suas belas lembranças que fizeram vir à tona as minhas e lhe abraçar como se abraça uma irmã.

    Cleonice

  • 3. marianne  |  9 de Abril de 2007 às 21:19

    adorei o seu texto.
    sou paulistana e pretendo ir no dia 23 de abril para penedo, justamente para sentir o sabor e a alma do rio são francisco.
    fico triste com o desmatamento , poluição enfim com o lado negativo da obra desumana.
    mas de qualquer forma aceito todas as sujestões possíveis no trajeto de pebnedo a piranhas. qual o melhor trajeto, perto do rio, quaias melhores cidades; as mais típicas , as mais simples as que contem maior riqueza de princípios.
    agradeço antecipadamente. marianne fry

  • 4. Simão R da Silva  |  24 de Abril de 2007 às 14:26

    Olá Martha,

    Mesmo distante no espaço e no tempo, daí de Penedo, adoro quando vejo alguma coisa boa de minha Alagoas, afinal, quando me abordam or aqui, por ser alagoano, falam sempre “da terra do Collor” ou outras coisa que nem osto de lembrar…
    Gostei muito de seu texto, aliás, não me causa muita surpresa pois sempre admirei vc.
    Um abraço a todos os penedendes, para aonde, com certeza, um dia voltarei.

  • 5. gilvan santos em SP  |  25 de Abril de 2007 às 22:10

    olha Martha lendo esse seu relato sbre o rio s.francisco eu me senti no porto da meranda entre a fabrica de tecidos e a fabrica de sabão hoje o colegio Douglas r.do fogo e fabrica de sabão não sei o que é hoje. me entristesso com os pontos negativos mas me alegro com a renovação das àguas. me vejo pescando saburicas c/jereré de mosquiteiro a noite,pegando curucas na rocheira mergulhando,nadando da pedra de s.Pedro ao aterro da R.dos pescadores ou até a fabrica de sabão. a final morava na R.alto da polvora. um abraço a todos os Penedenses. trabalhei na prefeitura na epoca do Valter fernandes, e você tambem. quando o Zé Alves era o prefeito. dai eu pedi baixa pra vir p/SP e não voltei mais. acompanho os acontecimentos agora pela internet, ou filmes como Deus é Brasileiro ou espelhodágua. que Deus te ilumine sempre fui teu fã e do Helio palito também que Deus ilumine ele a frente da secretaría. um abraço do amigo e fã GILVAN agora em GUARULHOS - SP ainda como gerente de condominio.fique com deus e um abraço a vc e ao seu filho da epoca do Anfrisio.

  • 6. JAELSON LIMA  |  10 de Maio de 2007 às 18:59

    marta muito legal a penedo fm esta em todo o brasil pela internet, parabens ao seu trabalho a frente desta grande radio e que deus te abençoe e a todos do quadro de funcionario. um abraço de seu conterranio.

    Jaelson Lima Aracaju-se

  • 7. ROBERTO  |  13 de Agosto de 2007 às 11:28

    É isso mesmo o Rio São Francisco tem muitas histórias quem dera eu contar,minhas também, as vezes sonho com o rio que tantas vezes nadei em suas aguas por isso temos que lutar pelo que é nosso e da futura geracao. JOSÉ ROBERTO - SÃO PAULO,13 DE AGO 07.

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