Arquivo de Abril de 2007

Feliz Aniversário Penedo!

PENEDO. Fui construída no clima mágico desta cidade. Penedo do Sítio Araçá, onde vivi minha infância e os melhores momentos de minha vida. Penedo do meu Rio São Francisco, Penedo do navio Comendador Peixoto, com seu apito que me fazia tremer de medo, mas que exercia sobre mim um enorme fascínio, fazendo-me sonhar com as viagens rio acima. O esplendor de suas luzes, a roupa engomada de seus tripulantes cheias de botões dourados, o tubo preto de sua chaminé, parecem acenar e seduzir.
Penedo das fábricas de beneficiamento de arroz enfileiradas em frente ao cais, das montanhas de cascas de arroz onde eu brincava de pula-pula observando o movimento frenético das canoas que traziam progresso para o comércio de nossa cidade.
Penedo do Mercado Municipal de onde fui levada por uma cigana aos três anos de idade. Das bancas e lojas, do “Seu” Aprício, do Caxiado, do Mangabeira, do “Seu” Luiz…Penedo da feira, do burburinho, das bancas de Otacílio Xavier, o Oxis, de Dona Virgínia, Dona Maria, “Seu” Eugênio…dos barracões do Mané Rosendo, onde comprávamos os recentes lançamentos de tamancos!, dos banhos nas calhas do Teatro Sete de Setembro em dias de chuva!
Penedo das lendas, do túnel do convento, da procura de dobrões de ouro pela suposta trilha de fuga dos holandeses, das expedições à rocheira, aos velhos casarões abandonados. Penedo da Banca do Peixe com pedras avermelhadas cheias de pintinhas brancas, do cheiro de peixe, do cheiro de gente! Penedo do bolachão da Padaria Primor, quentinho, saboreado com manteiga do sertão comprada na esquina do Pavilhão, na venda do “Seu” Cândido.
Penedo da Floriano Peixoto, da missa aos domingos na Igreja de São Gonçalo, das árvores enfileiradas como se fossem guardiões de nossa cultura, podada por causa dos lacerdinhas, como foram podados tantos dos nossos sonhos de progresso e desenvolvimento.
Penedo. Travessa Professor Henrique Tomaz, numero 2. Durante muitos anos, até a morte de minha mãe, esse foi o nosso endereço. Hoje, ao passar pelo “bequinho”, tenho a estranha sensação de perda. Não consigo me situar no espaço que tantas vezes percorri, ora com um livro nas mãos, pois tinha o hábito de estudar andando e em voz alta, ora brincando de “bicho”, de boneca, correndo com Tintureiro, meu primeiro cão, ou enfrentando os “mijões” que utilizavam o nosso bequinho sem o menor pudor para satisfazer suas necessidades fisiológicas durante os festejos de Natal, Ano-Novo e carnavais que eram realizados na avenida Floriano Peixoto.
Penedo da roda gigante do Pessoa, montada em frente ao Teatro Sete de Setembro, do brilho de suas luzes, da ornamentação feita pelo Seu Zé Vécio por encomenda da Prefeitura Municipal. Eram árvores de natal enfeitadas de luzes e cores, papais-noéis gordinhos, bochechudos e rosados que sorriam carregando enormes sacos vermelhos cheios de presentes… e sonhos.
Penedo das barracas de sequilhos, amendoim torrado ou açucarado, embalados em coloridos barquinhos de papel, algodão doce, rolete de cana. Penedo dos carnavais com a banda de múscia tocando no palanque montado em frente às Lojas Paulista, das aparições do Zé Mulé, com suas roupas maravilhosas, brilhantes, cheias de plumas e paetés, do Zé Pereira, do carnavalesco Zé Pintinha e sua colossal alegria, do Bloco dos Caretas, com máscaras feitas com as sacolas de pão de minha mãe, bordadas em pontos de cruz.
Deixei de sair no bloco dos Caretas depois de um fato interessante. Eu, Sinhá Valda, Neno, Solange, Valter, Alberto Espinheira, Betânia Brasil, Elvira e Margarida fizemos um bloco para brincar o carnaval e armados com cabos de vassoura e vestidos com caretas feitas com os sacos de pão e roupas de saco de farinha de trigo conseguidas na Padaria Primor, saimos percorrendo as ruas da cidade. Nas imediações da Catedral, o grupo daquele “território” ( leia-se Valdi Fernando e sua turma) jogou sobre nós o conteúdo de penicos. Foi um desastre. Durante dias, tomei banhos e mais banhos, mas parecia que o cheiro continuava entranhado na minha pele, nos meus cabelos, no meu nariz. A partir daí, substituimos o bloco dos caretas pela guerra dos mijões e das espadas durante os festejos juninos. Reuníamos uma turma formada pelos meninos e meninas que moravam na região da feira livre, Santa Cruz, rua das Cajazeiras e Ulisses Batinga, contra os que moravam na parte de cima, ou seja, na rua Sete de Setembro, Praça da Catedral, rua Dâmaso do Monte, rua Fernandes de Barros, e da Quitanda, e a guerra estava formada. Só não permitíamos a participação dos meninos da zona. Éramos, como ainda hoje somos, preconceituosos. Na nossa guerra, tínhamos uma vantagem: as barracas de venda de fogos ficavam na hoje conhecida Feira da Laranja, bem próximo à Banca do Peixe e dos Barracos do Mané Rosendo. Quando a guerra começava, a turma da rua de cima ficava impossibilitada de comprar fogos porque nós interditávamos todas as descidas com barreiras no Beco da Goiaba, na Pedra da Arara e nas ruas da feira. Era como se estivéssemos num campo de batalha. Como eram grandes os nossos horizontes!!
Penedo. Da Casa São Francisco, minha primeira escolinha, com Dona Crizantina, de onde voltei para casa aos prantos depois de descobrir que “tinha menino homem” estudando também! Do colégio Imaculada Conceição, da Irmã Genoveva, minha professora do Jardim Infantil. Do meu Gabino Besouro, do Colégio Estadual, das boas lembranças de momentos e colegas, dos professores a quem devo o que sou porque eles embasaram a minha formação e nortearam toda a minha vida, minhas emoções, minha cidadania.
Penedo dos seus personagens. Penedo do Caxixi e do Pilinha, da Dai, da Maria Esmulambada, da Carmelita e tantos outros…
Penedo da ladeira do convento, onde tantas vezes subi correndo e desci de carrinho de rolimã e patinete. Dos buracos feitos no muro formando uma escada para ter acesso ao pátio e roubar amoras, mesmo com os gritos e ameaças de Dona Alci e Dona Eutália e o medo do flagrante dos frades. Nós também tínhamos um medo danado de aparecer o famoso “frade sem cabeça”, do qual ouvíamos falar em mais uma das tantas lendas de Penedo!
Penedo, onde vivi minha adolescência observando as sutilezas de um país que vivia uma ditadura e vivenciando um conflito constante entre o pensar sobre o que estava errado e aceitar a realidade que se impunha pela condição sócio-econômica-política do cotidiano, e que estavam muito além dos comícios da Floriano Peixoto ou das produções veiculadas no serviço de auto-falente de Luis Fausto ou da Emissora Rio São Francisco. Aliás, foi na Emissora Rio São Francisco, aos cinco anos de idade, levada pelo penedense Zé Abílio, que me apresentei pela primeira vez no rádio: “Batatinha quando nasce, se esparrama pelo chão…” Caras lembranças!
Aqui aprendi que existem dois mundos: aquele que idealizamos e pensamos que pode ser e aquele que se desenha todos os dias de nossas vidas.
Nessa terra do Penedo estão secas as minhas lágrimas, absorvidas por um chão de pedra que me ensinou a ser forte. Nas paredes seculares de seus casarões, ainda ecoam meus gritos de liberdade e insurreição que alimentam meu espírito e me impedem de abandonar a luta. Em seu horizonte, ainda estão os meus sonhos, enfeitados pelas cores do pôr-do-sol, regados pelas águas do Velho Chico.
Nessa terra de meu avô e meu pai nasceram meus filhos e no túmulo do Cemitério de São Gonçalo do Amarante, erguido na área onde deu-se a mais sangrenta batalha dos penedenses na luta contra os holandeses, quero ser enterrada.
Nesse aniversário de Penedo gostaria de ter o poder de expressar em palavras todo o meu sentimento em relação a essa cidade que é ao mesmo tempo fascinante e cruel, mas só consigo mesmo entabular uma conversa íntima e pessoal que nasce na madrugada, assim como eu, diante de um rio que vai aos poucos cobrindo-a com uma neblina que tem ares de boemia.
O brilho do luar de Penedo refletido nas águas do Rio São Francisco me guiou de volta e colocou-me em um caminho que, não sei se feliz ou infelizmente, não tem retorno.
Feliz Aniversário Penedo. Minha terra, meu amor!!!!

14 comentários 11 de Abril de 2007 às 16:07 Martha Martyres


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