Feliz Aniversário Penedo!
11 de Abril de 2007 às 16:07 Martha Martyres | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 831
PENEDO. Fui construída no clima mágico desta cidade. Penedo do Sítio Araçá, onde vivi minha infância e os melhores momentos de minha vida. Penedo do meu Rio São Francisco, Penedo do navio Comendador Peixoto, com seu apito que me fazia tremer de medo, mas que exercia sobre mim um enorme fascínio, fazendo-me sonhar com as viagens rio acima. O esplendor de suas luzes, a roupa engomada de seus tripulantes cheias de botões dourados, o tubo preto de sua chaminé, parecem acenar e seduzir.
Penedo das fábricas de beneficiamento de arroz enfileiradas em frente ao cais, das montanhas de cascas de arroz onde eu brincava de pula-pula observando o movimento frenético das canoas que traziam progresso para o comércio de nossa cidade.
Penedo do Mercado Municipal de onde fui levada por uma cigana aos três anos de idade. Das bancas e lojas, do “Seu” Aprício, do Caxiado, do Mangabeira, do “Seu” Luiz…Penedo da feira, do burburinho, das bancas de Otacílio Xavier, o Oxis, de Dona Virgínia, Dona Maria, “Seu” Eugênio…dos barracões do Mané Rosendo, onde comprávamos os recentes lançamentos de tamancos!, dos banhos nas calhas do Teatro Sete de Setembro em dias de chuva!
Penedo das lendas, do túnel do convento, da procura de dobrões de ouro pela suposta trilha de fuga dos holandeses, das expedições à rocheira, aos velhos casarões abandonados. Penedo da Banca do Peixe com pedras avermelhadas cheias de pintinhas brancas, do cheiro de peixe, do cheiro de gente! Penedo do bolachão da Padaria Primor, quentinho, saboreado com manteiga do sertão comprada na esquina do Pavilhão, na venda do “Seu” Cândido.
Penedo da Floriano Peixoto, da missa aos domingos na Igreja de São Gonçalo, das árvores enfileiradas como se fossem guardiões de nossa cultura, podada por causa dos lacerdinhas, como foram podados tantos dos nossos sonhos de progresso e desenvolvimento.
Penedo. Travessa Professor Henrique Tomaz, numero 2. Durante muitos anos, até a morte de minha mãe, esse foi o nosso endereço. Hoje, ao passar pelo “bequinho”, tenho a estranha sensação de perda. Não consigo me situar no espaço que tantas vezes percorri, ora com um livro nas mãos, pois tinha o hábito de estudar andando e em voz alta, ora brincando de “bicho”, de boneca, correndo com Tintureiro, meu primeiro cão, ou enfrentando os “mijões” que utilizavam o nosso bequinho sem o menor pudor para satisfazer suas necessidades fisiológicas durante os festejos de Natal, Ano-Novo e carnavais que eram realizados na avenida Floriano Peixoto.
Penedo da roda gigante do Pessoa, montada em frente ao Teatro Sete de Setembro, do brilho de suas luzes, da ornamentação feita pelo Seu Zé Vécio por encomenda da Prefeitura Municipal. Eram árvores de natal enfeitadas de luzes e cores, papais-noéis gordinhos, bochechudos e rosados que sorriam carregando enormes sacos vermelhos cheios de presentes… e sonhos.
Penedo das barracas de sequilhos, amendoim torrado ou açucarado, embalados em coloridos barquinhos de papel, algodão doce, rolete de cana. Penedo dos carnavais com a banda de múscia tocando no palanque montado em frente às Lojas Paulista, das aparições do Zé Mulé, com suas roupas maravilhosas, brilhantes, cheias de plumas e paetés, do Zé Pereira, do carnavalesco Zé Pintinha e sua colossal alegria, do Bloco dos Caretas, com máscaras feitas com as sacolas de pão de minha mãe, bordadas em pontos de cruz.
Deixei de sair no bloco dos Caretas depois de um fato interessante. Eu, Sinhá Valda, Neno, Solange, Valter, Alberto Espinheira, Betânia Brasil, Elvira e Margarida fizemos um bloco para brincar o carnaval e armados com cabos de vassoura e vestidos com caretas feitas com os sacos de pão e roupas de saco de farinha de trigo conseguidas na Padaria Primor, saimos percorrendo as ruas da cidade. Nas imediações da Catedral, o grupo daquele “território” ( leia-se Valdi Fernando e sua turma) jogou sobre nós o conteúdo de penicos. Foi um desastre. Durante dias, tomei banhos e mais banhos, mas parecia que o cheiro continuava entranhado na minha pele, nos meus cabelos, no meu nariz. A partir daí, substituimos o bloco dos caretas pela guerra dos mijões e das espadas durante os festejos juninos. Reuníamos uma turma formada pelos meninos e meninas que moravam na região da feira livre, Santa Cruz, rua das Cajazeiras e Ulisses Batinga, contra os que moravam na parte de cima, ou seja, na rua Sete de Setembro, Praça da Catedral, rua Dâmaso do Monte, rua Fernandes de Barros, e da Quitanda, e a guerra estava formada. Só não permitíamos a participação dos meninos da zona. Éramos, como ainda hoje somos, preconceituosos. Na nossa guerra, tínhamos uma vantagem: as barracas de venda de fogos ficavam na hoje conhecida Feira da Laranja, bem próximo à Banca do Peixe e dos Barracos do Mané Rosendo. Quando a guerra começava, a turma da rua de cima ficava impossibilitada de comprar fogos porque nós interditávamos todas as descidas com barreiras no Beco da Goiaba, na Pedra da Arara e nas ruas da feira. Era como se estivéssemos num campo de batalha. Como eram grandes os nossos horizontes!!
Penedo. Da Casa São Francisco, minha primeira escolinha, com Dona Crizantina, de onde voltei para casa aos prantos depois de descobrir que “tinha menino homem” estudando também! Do colégio Imaculada Conceição, da Irmã Genoveva, minha professora do Jardim Infantil. Do meu Gabino Besouro, do Colégio Estadual, das boas lembranças de momentos e colegas, dos professores a quem devo o que sou porque eles embasaram a minha formação e nortearam toda a minha vida, minhas emoções, minha cidadania.
Penedo dos seus personagens. Penedo do Caxixi e do Pilinha, da Dai, da Maria Esmulambada, da Carmelita e tantos outros…
Penedo da ladeira do convento, onde tantas vezes subi correndo e desci de carrinho de rolimã e patinete. Dos buracos feitos no muro formando uma escada para ter acesso ao pátio e roubar amoras, mesmo com os gritos e ameaças de Dona Alci e Dona Eutália e o medo do flagrante dos frades. Nós também tínhamos um medo danado de aparecer o famoso “frade sem cabeça”, do qual ouvíamos falar em mais uma das tantas lendas de Penedo!
Penedo, onde vivi minha adolescência observando as sutilezas de um país que vivia uma ditadura e vivenciando um conflito constante entre o pensar sobre o que estava errado e aceitar a realidade que se impunha pela condição sócio-econômica-política do cotidiano, e que estavam muito além dos comícios da Floriano Peixoto ou das produções veiculadas no serviço de auto-falente de Luis Fausto ou da Emissora Rio São Francisco. Aliás, foi na Emissora Rio São Francisco, aos cinco anos de idade, levada pelo penedense Zé Abílio, que me apresentei pela primeira vez no rádio: “Batatinha quando nasce, se esparrama pelo chão…” Caras lembranças!
Aqui aprendi que existem dois mundos: aquele que idealizamos e pensamos que pode ser e aquele que se desenha todos os dias de nossas vidas.
Nessa terra do Penedo estão secas as minhas lágrimas, absorvidas por um chão de pedra que me ensinou a ser forte. Nas paredes seculares de seus casarões, ainda ecoam meus gritos de liberdade e insurreição que alimentam meu espírito e me impedem de abandonar a luta. Em seu horizonte, ainda estão os meus sonhos, enfeitados pelas cores do pôr-do-sol, regados pelas águas do Velho Chico.
Nessa terra de meu avô e meu pai nasceram meus filhos e no túmulo do Cemitério de São Gonçalo do Amarante, erguido na área onde deu-se a mais sangrenta batalha dos penedenses na luta contra os holandeses, quero ser enterrada.
Nesse aniversário de Penedo gostaria de ter o poder de expressar em palavras todo o meu sentimento em relação a essa cidade que é ao mesmo tempo fascinante e cruel, mas só consigo mesmo entabular uma conversa íntima e pessoal que nasce na madrugada, assim como eu, diante de um rio que vai aos poucos cobrindo-a com uma neblina que tem ares de boemia.
O brilho do luar de Penedo refletido nas águas do Rio São Francisco me guiou de volta e colocou-me em um caminho que, não sei se feliz ou infelizmente, não tem retorno.
Feliz Aniversário Penedo. Minha terra, meu amor!!!!
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14 Comentários Faça seu próprio
1. Romerito de Queiroz | 11 de Abril de 2007 às 22:53
Martha, fiquei muito emocionado ao ler essas palavras sobre Penedo. Você é realmente uma poetisa, a mais penedense que conheço, sinto-me orgulhoso pela sua pessoa, por haver alguém que se orgulhe tanto dessa cidade que também muito me fascina.
Você me fez relembrar um passado que também foi meu. Estudei também no Gabino Besouro e Colégio Normal. Deixei Penedo há 35 anos, mas as lembranças e orgulho dela estão sempre comigo. Parabéns, Martha! Você é um orgulho para o povo penedense e aí me incluo!!!!!
2. reyneryson | 12 de Abril de 2007 às 12:03
adorei essas palavra vc passa um mensagem muito emocionante parabens por esse dom que DEUS te deu
3. Maciel Oliveira | 13 de Abril de 2007 às 16:23
Martha, fiquei emocionado de ler o seu texto, apesar de não ter nascido em Penedo me considero penedense e tenho muito orgulho de morar aqui…parabéns
4. Wesley Andrade Freitas | 16 de Abril de 2007 às 16:34
Martha, adorei suas palavras, mostra seu amor pela cidade que me acolheu aos meus 15 anos quando aqui comecei a trabalhar na CEF, hoje, 13 anos depois, constitui minha familia, aqui tenho meu endereço e este é o lugar onde pretendo passar o resto da minha vida, assim como você, amo demais a minha cidade, parabéns a nós por sermos penedenses. Me considero um previlegiado por ter nascido aqui!!! abraço.
5. Antonio Roberto Souza Melo | 30 de Abril de 2007 às 09:56
Impossível ficar indiferente ao seu texto “Feliz Aniversário Penedo”, de 11/04/07, pela generosidade humana e poesia ali presentes, verdadeiro exemplo de vida, que pulsa mais e mais quando expomo-nos como realmente somos. Inteiros. Quando a musa inspiradora lhe tocar de novo, ela sempre volta! peço incluir também as matinês do cine Penedo, com os “cowboys” e as seriados dos Zorro e cia., com toda a patota esperando anciosamente o mocinho beijar a protagonista. Antes da fita, havia a sessão troca-troca de gibis.
Um abraço. Inclua-me entre os seus fãs.
Roberto Melo
6. jefferson(cebolinha) | 2 de Junho de 2007 às 22:21
oi marta gosto quando vc fala da nossa terrinha pensse na sudades q tenho d penedo bjsssssssss
7. Arnaldo Torres Santos | 4 de Junho de 2007 às 14:20
MARTHA:
Você conseguiu com a sua narração FAZER ME RECORDAR EMOCIONADAMENTE da minha infância. Parece que eu estou vendo um filme da minha vida: Seu APRIGIO, comprade de neu pai ( ARNÓBIO DA PASSAGEM): seu LUIZ( Gerente do MERCADO e pai de LULA, meu amigo da ROCHEIRA).e tantos OUTROS.
Fui aluno do GRUPO ESCOLAR GABINO BEZOURO, de 1954 a 1958, e do COLÉGIO DIOCESANO DE PENEDO, de 1959 a 1960.
Em 1961 nossa família veio morar em Recife-PE.
Atualmente moro em Gravatá-PE.Vou a PENEDO sempre que posso ou via INTERNET, a qualquer hora..
PARABÉNS.
Arnaldo Torres Santos.
8. Eliane Batista Santos | 14 de Junho de 2007 às 13:49
SÓ QUERO DIZER UMA SÓ COISINHA, EU AMO A PENEDO FM 97,3 PRINCIPALMENTE PQ AGORA EU AKI EM SÃO PAULO POSSO OUVIR TODOS VCS ATRAVÉS DA INTERNET E CONVERSAR TB, ******PARABÉNS******* BJS… FUIIIIIIIIIIIII.
9. cleonice cerqueira | 30 de Junho de 2007 às 23:13
Querida Marta as palavras de seu texto ‘Feliz Aniversário Penedo’ trouxeram-me lembranças da minha infancia e adolencencia, vividas aí. Aproveito para pedir as pessoas que estudaram ni Gabino Besouro me dêem noticias de uma professora chamada Dona Avanir, e de outra professora chamada Zélia Calumbi, estA foi minha primeira professora no Grupo Escolar Jácome Calheiros
10. Evanilson Duarte | 22 de Julho de 2007 às 19:52
podes até não me conhecer, mas meu irmão tenho certeza que conheces, trata-se do Pe. Edilson. Fico bastante feliz por seu trabalho e rogarei a Deus que outros(as) como você possa contribuir para a nossa cidade continuar exportando e importando homens emulheres de bem.
11. ROBERTO | 13 de Agosto de 2007 às 11:39
Meus parabéns a cidade de PENEDO,e a população de tu penedo que faz de seu povo batalhador um herói nestas águas cristalinas. JOSÉ ROBERTO-SÃO PAULO,13DEAGO07.
12. Israel simão da silva | 15 de Dezembro de 2007 às 23:43
Meus parabéns minha querida cidade de penedo, é assim com todo carinho e satisfaçao que eu deixo aqui todos que moram nesse maravilhosa terra ,que é penedo. Eu hoje estou morando em RIBEIRÃO PRETO-SP: Más daqui continuo ouvindo a querida PENEDO_FM (97,3). E com satisfação que eu entro em contato com vocês da radio PENEDO FM .Por favor mande um aló pra toda a minha familía que mora na vila primavera,beco do hospital, na rua do regional. por favor me mande um retorno,por que eu não vou desiste de continuar mantendo contato com vocêsda penedo-fm ISRAEL SIMÃO - RIBEIRÃO PRETO–SP 16/12/2007 BJSSSSS NO CORAÇÃO TCHAU BEIJOS MARTA MARTYRES……..fuiiiiiiiiii estou sempre ligado okkkkkkkkkkkkkkkkkkkk MANDE UM ALÓ PRA MINHA MÃE .CLAUDETE DA SILVA.
13. Jose Santos | 26 de Janeiro de 2008 às 15:45
Marta,
Foi emocionante ler esta crônica sobre o aniversário de Penedo. Nasci em Ilha da Flores, mas fui criado em Penedo onde vivi até os meus 18 anos. HOje tenho 54 anos e moro em Jacareí-SP.
Pela minha mente passaram como no flash-back, todas as pessoas e situações citadas por você. Quase todas eu conheci ou vivi.
Por muitos anos morei na rua Perilo Gomes (próximo da Pedra da Arara), também estudei no Gabino Besouro,Colégio Normal e Escola Técniac D. Jonas Batinga.
Lembrei-me também de algumas figuras folclóricas não citadas em sua crônica, muito provavelmente por falta de espaço e peço licença para citá-las
Sr. Filinho - que montava o tiro ao alvo, na epóca de Natal proximo do Teatro 7 de setembro, cujo prêmio eram maços de cigarro.
Ligeirinho - Nunca soube o nome dele, mas lembro que ele entregava revistas ( O Cruzeiro, Fatos e Fotos, Manchete, etc),Colocava um monte embaixo do braço e saía em disparada.
O Parente - Um senhor que morava próximo do Hotel São Francisco e que montava o Carrossel (cavalinho), que não tinha motor elétrico, sendo empurrado por homens.
O Sr. Joca que fazia peão na Santa Cruz
Sr. Oscar do creme- o homem que vendia sobre-mesas nos barracões de madeira próximo ao Mané Rozendo
O Maraú - um barbeiro que; diz a lenda o freguês tinha a opção de cortar o cabelo com dor ou sem dor.
Dona Elenira Reis - Uma solteirona que dava tinha uma escola particular (naqueles tempos não havia Escolas Infantis), da qual eu levei muita “reguada”.
Vou parar por aqui, agradecendo a Deus pela oportunidade de ter vido numa epóca tão marcante nesta terra abençoada e para onde um dia eu pretendo voltar
E a você por ter me feito voltar a este tempo. Parabéns e muito obrigado.
Jose Santos
14. gessica | 13 de Fevereiro de 2008 às 10:08
penedo é uma cidade historica e muito visitada pelos turistas e é muito linda
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