CONSTATAÇÃO
Como é ruim ter consciência em uma manhã assim!
Acordei cedo e nem a chuva fininha que caía me demoveu da idéia de ver a cidade acordando.
Percorri as ruas, olhei o Velho Chico tranqüilo, correndo lentamente em direção ao mar, vi pescadores em suas canoas, mulheres indo para a missa, um cachorro solitário sentado à porta do Convento observando a entrada, um arco-íris desenhado no céu e uma criança descalça, olhar faminto, vestindo “camisa de candidato”, que me estira a mão e pede “dez centavos”,
É muito triste ter consciência em uma manhã assim.
Tenho vontade de chorar. Paro na padaria e compro pão quentinho. Sigo para casa, ligo a cafeteira, mas o estômago está embrulhado. Perdi a fome.
Amanhã, por estas horas, estarei tomando o caminho do trabalho. Tenho notícias a dar! Notícias de crimes, fome desemprego, miséria, corrupção.
Aquela criança, amanhã, pode estar no centro das manchetes que vou anunciar, como mais uma vítima de todas essas mazelas reais.
Esbarro na sensação de que o mundo ainda não aprendeu nem aprenderá e me pergunto se vale à pena continuar, lutar, falar, escrever, participar, esbravejar por cidadania ou tentar compreender em profundidade a dimensão da revolução que coloca o homem no centro e na medida de todas as coisas terrenas.
Estamos morrendo, estamos matando. Estamos perdidos!
E o homem quer continuar matando. Principalmente aqueles que se dizem acima das divergências e fazem acordos e pactos consubstanciados naquilo que chamam de “um programa capaz de libertar o podo da opressão política e econômica”.
O homem quer continuar matando. Diretamente, através dos assassinatos diários, indiretamente aos miseráveis, aos famintos, aos sem-terra, aos sem-teto, aos sem-emprego, aos meninos e meninas prostituídos e drogados. Matará pela poluição, pelo envenenamento das águas, pelo stress, pela guerra. Vai matar pelos vazamentos das usinas atômicas, pela destruição dos rios, das florestas, pela tortura, pelo trabalho escravo, pela dependência e pela ignorância.
O homem vai continuar matando. O homem vai seguir matando pelo desencadeamento de forças que ele próprio não tem mais como controlar.
Os homens matam porque se eles não destruírem seus adversários não se sentem vitoriosos.
É muito triste ter consciência em uma manhã assim! Ser testemunha de um cenário como esse, de desigualdades sociais que relegam um número cada vez maior de crianças a sofrer em condições desumanas.
Aquela criança vestindo “camisa de candidato”, é apenas mais uma no meio de tantas que se engalfinham nas ruas, cheiram cola e esmalte na Orla, prostituem-se nos quiosques da beira do rio para ganhar dois reais, roubam pequenos objetos nos supermercados, nas bancas da feira livre!
Que aqueles que me ouvem no cotidiano do rádio ou acessam esse blog para ler o que escrevo, possam me perdoar e entender! Estou cansada!
Cansada de ter consciência, de esperar por uma mudança que não chega nunca. Cansada de “dar murro em ponta de faca”, de vender esperança e falar em cidadania para uma população que não tem acesso à saúde, como aquela mulher que entrou no meu estúdio com um filho morto nos braços porque não conseguiu atendimento médico ou como aquelas que vêm, todos os dias, em busca de uma cesta básica para matar a fome de sua família ou pedir um plástico para cobrir o barraco que os abriga da chuva!
Olho ao redor e vejo apenas a crescente e incontrolável degradação humana.
Antes, eu tinha absoluta convicção de que conhecia todos os caminhos e todas as respostas. Assim, atirava-me no centro dos acontecimentos superestimando minha capacidade de viabilizar soluções. Ao fazer uma campanha de agasalho, um Natal Sem Fome; ao orientar uma mulher violentada para lutar pelos seus direitos e pela sua dignidade de pessoa humana, sentia-me fortalecida, até mesmo orgulhosa de minhas ações e experimentava uma gostosa sensação de paz. Hoje, sinto um grande desânimo e não há metáfora de andorinha que me motive.
Em sua música que atravessa as fronteiras do tempo, Cazuza disse que seus heróis morreram de overdose, numa referência a tantos grandes ídolos que se deixaram vencer pelas drogas psicotrópicas como a maconha, o LSD, a cocaína e tantas outras.
Penso que os meus heróis (gestores de muitos projetos nos quais acreditei, até porque sigo projetos e não homens!), também estão morrendo de overdose, um a um: a overdose da droga do poder.
Nesse mundo de tantos e inconfessáveis interesses, tenho sentido não apenas fadiga, mas uma vergonha íntima, profunda, incomensurável.
“Uma vez desencadeada, a soberania da conveniência política não tem limites”, segundo Rui Barbosa.
Perderam-se os limites, perdeu-se a razão.
Estamos todos perdidos!
2 comentários 18 de Maio de 2007 às 16:32 Martha Martyres