CONSTATAÇÃO
18 de Maio de 2007 às 16:32 Martha Martyres | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 124
Como é ruim ter consciência em uma manhã assim!
Acordei cedo e nem a chuva fininha que caía me demoveu da idéia de ver a cidade acordando.
Percorri as ruas, olhei o Velho Chico tranqüilo, correndo lentamente em direção ao mar, vi pescadores em suas canoas, mulheres indo para a missa, um cachorro solitário sentado à porta do Convento observando a entrada, um arco-íris desenhado no céu e uma criança descalça, olhar faminto, vestindo “camisa de candidato”, que me estira a mão e pede “dez centavos”,
É muito triste ter consciência em uma manhã assim.
Tenho vontade de chorar. Paro na padaria e compro pão quentinho. Sigo para casa, ligo a cafeteira, mas o estômago está embrulhado. Perdi a fome.
Amanhã, por estas horas, estarei tomando o caminho do trabalho. Tenho notícias a dar! Notícias de crimes, fome desemprego, miséria, corrupção.
Aquela criança, amanhã, pode estar no centro das manchetes que vou anunciar, como mais uma vítima de todas essas mazelas reais.
Esbarro na sensação de que o mundo ainda não aprendeu nem aprenderá e me pergunto se vale à pena continuar, lutar, falar, escrever, participar, esbravejar por cidadania ou tentar compreender em profundidade a dimensão da revolução que coloca o homem no centro e na medida de todas as coisas terrenas.
Estamos morrendo, estamos matando. Estamos perdidos!
E o homem quer continuar matando. Principalmente aqueles que se dizem acima das divergências e fazem acordos e pactos consubstanciados naquilo que chamam de “um programa capaz de libertar o podo da opressão política e econômica”.
O homem quer continuar matando. Diretamente, através dos assassinatos diários, indiretamente aos miseráveis, aos famintos, aos sem-terra, aos sem-teto, aos sem-emprego, aos meninos e meninas prostituídos e drogados. Matará pela poluição, pelo envenenamento das águas, pelo stress, pela guerra. Vai matar pelos vazamentos das usinas atômicas, pela destruição dos rios, das florestas, pela tortura, pelo trabalho escravo, pela dependência e pela ignorância.
O homem vai continuar matando. O homem vai seguir matando pelo desencadeamento de forças que ele próprio não tem mais como controlar.
Os homens matam porque se eles não destruírem seus adversários não se sentem vitoriosos.
É muito triste ter consciência em uma manhã assim! Ser testemunha de um cenário como esse, de desigualdades sociais que relegam um número cada vez maior de crianças a sofrer em condições desumanas.
Aquela criança vestindo “camisa de candidato”, é apenas mais uma no meio de tantas que se engalfinham nas ruas, cheiram cola e esmalte na Orla, prostituem-se nos quiosques da beira do rio para ganhar dois reais, roubam pequenos objetos nos supermercados, nas bancas da feira livre!
Que aqueles que me ouvem no cotidiano do rádio ou acessam esse blog para ler o que escrevo, possam me perdoar e entender! Estou cansada!
Cansada de ter consciência, de esperar por uma mudança que não chega nunca. Cansada de “dar murro em ponta de faca”, de vender esperança e falar em cidadania para uma população que não tem acesso à saúde, como aquela mulher que entrou no meu estúdio com um filho morto nos braços porque não conseguiu atendimento médico ou como aquelas que vêm, todos os dias, em busca de uma cesta básica para matar a fome de sua família ou pedir um plástico para cobrir o barraco que os abriga da chuva!
Olho ao redor e vejo apenas a crescente e incontrolável degradação humana.
Antes, eu tinha absoluta convicção de que conhecia todos os caminhos e todas as respostas. Assim, atirava-me no centro dos acontecimentos superestimando minha capacidade de viabilizar soluções. Ao fazer uma campanha de agasalho, um Natal Sem Fome; ao orientar uma mulher violentada para lutar pelos seus direitos e pela sua dignidade de pessoa humana, sentia-me fortalecida, até mesmo orgulhosa de minhas ações e experimentava uma gostosa sensação de paz. Hoje, sinto um grande desânimo e não há metáfora de andorinha que me motive.
Em sua música que atravessa as fronteiras do tempo, Cazuza disse que seus heróis morreram de overdose, numa referência a tantos grandes ídolos que se deixaram vencer pelas drogas psicotrópicas como a maconha, o LSD, a cocaína e tantas outras.
Penso que os meus heróis (gestores de muitos projetos nos quais acreditei, até porque sigo projetos e não homens!), também estão morrendo de overdose, um a um: a overdose da droga do poder.
Nesse mundo de tantos e inconfessáveis interesses, tenho sentido não apenas fadiga, mas uma vergonha íntima, profunda, incomensurável.
“Uma vez desencadeada, a soberania da conveniência política não tem limites”, segundo Rui Barbosa.
Perderam-se os limites, perdeu-se a razão.
Estamos todos perdidos!
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2 Comentários Faça seu próprio
1. Rafael Medeiros | 22 de Maio de 2007 às 02:07
Creio que muitas pessoas de nossa cidade sentem-se como você Martha. Cansadas de “dar murro em ponta de faca”, lutar sempre pela dignidade e o respeito ao cidadão, quando os homens continuam matando a nossa esperança e detonando os nossos sonhos.
2. Antonia Maria | 14 de Junho de 2007 às 19:33
Carta Denúncia aos Principais Meios de Comunicação de Penedo/Alagoas
Penedo/Alagoas, 18 de junho de 2007.
Historicamente, no Brasil, as esferas do público e do privado têm sido confundidas. Praticamente todos os políticos usam do seu poder e prestígio, submetendo o bem público a seu favor, ou seja, como um bem privado.
Em nossas relações sociais prevaleceu sempre o “conhecimento”. “Você conhece alguém que possa interceder a seu favor?”. Lembro de um caso contado por um antropólogo muito conhecido. Numa palestra ele narrou uma briga entre duas escravas num dos muitos arraias do nosso tempo colonial. Após trocarem muros, puxões de cabelo e empurrões, uma disse a outra, com voz enfática: “você sabe de quem sou escrava? Sabe quem é meu senhor?”. Moral da história: a negra que era propriedade de um nobre político achava-se superior a outra, pobre vassala de um reles negociante. No Brasil, desde 1500 é assim.
Alagoas, claro, não poderia ficar a margem dessa situação, uma vez que aqui os problemas, as diferenças, os preconceitos e a violência assumem dimensões superlativas, enraizadas no chamado ethos alagoano. No campo político, assistimos sucessivas gerações, que durante a passagem por cargos públicos fundam escolas e faculdades PÚBLICAS, que faceiramente acabam sendo incorporadas a patrimônios PRIVADOS FAMILIARES; resolvem problemas de terras, empregam parentes e amigos; enriquecem num piscar de olhos, constroem e reformam casas, compram carros, tudo isso usurpando recursos do erário público e tirando proveito dos seus respectivos cargos.
De tão corriqueira essa prática de favorecimento pessoal, familiar e amistosa passou a ser concebida como algo legal, comum ao leque de atribuições dos “bons” políticos. Poderia listar os nomes com os respectivos feitos desonestos, ilícitos e arbitrários de muitos políticos, mas o objetivo primordial desta missiva é denunciar o que está sendo feito pelo vereador do município de Igreja Nova/Alagoas, Roberto Moura, mais conhecido como Betinho Moura, que reside em Penedo, na Avenida Itaporanga, Bairro Cohab. Sua residência foi construída num terreno “doado” pelo ex-prefeito Tancredo Pereira, o que já se caracteriza como uma irregularidade, uma vez que o mesmo sempre teve condições de comprar um bom terreno. Sua casa é ladeada por dois terrenos baldios. Um já foi comprado por ele, com intuito de alargar sua residência, enquanto o outro… Bom, o outro é o problema, que merece que façamos uma regressão no tempo para chegarmos à década de 90 quando havia ali um belo prédio mantido pelo Estado, onde funcionava o importante: CENTRO DE ESTUDOS SUPLETIVOS “MESTRE CESÁRIO PROCÓPIO DOS MARTYRES”. Digo havia, pois o imóvel após ser abandonado, foi lentamente destruído pela ação do tempo e pelos meninos das ruas próximas, que, sem nenhuma área recreativa decente, utilizavam o espaço do nosso antigo SUPLETIVO para as mais diversas brincadeiras.
Não bastasse o descaso do poder público com aquela instituição que chegou a abrigar mais de uma centena de alunos e muitos profissionais, funcionando os três horários, com aulas e outras atividades educativas, agora o vizinho ilustre quer “dar ganho” no terreno. Isso mesmo. Se fosse um pobre ou um desvalido qualquer, chamaríamos de invasão, invocaríamos um pouco da força policial, e pronto o caso estaria resolvido. E do que chamar e o que fazer com o vereador da terra do “gabiru”? O certo é que se ficarmos calados e quietos como estamos acostumados a fazer, daqui a algum tempo, muito pouco tempo, o terreno do antigo SUPLETIVO, que levava o nome de um ilustre penedense será o quintal do vereador Betinho Moura. Nada mais doméstico e trivial: o político, que acha que pode fazer o que quiser, rouba o espaço PÚBLICO das crianças, dos transeuntes que utilizam o caminho, dos cidadãos comuns, da escola, do centro de saúde, do campinho, da praça… E o torna PRIVADO para ele e os seus familiares e amigos.
Para finalizar, gostaria de dizer que acredito na liberdade de expressão, na capacidade de mobilização e reivindicação dos meios de comunicação. E conto com a compreensão dos profissionais que fazem a imprensa em Penedo para a divulgação desta denúncia de mais um caso de injustiça e arbitrariedade que está sendo imposto para todos nós. Penso, sinceramente, que se todo cidadão comum usasse desse expediente, muito em breve poderíamos viver numa sociedade mais justa e moralmente digna.
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