Arquivo de Julho de 2007

EU NÃO SOU PENEDENSE. E DAÍ?

Há algum tempo quero fazer considerações sobre algo muito peculiar nos dias de hoje: a necessidade que certas pessoas têm de achar que são únicas, vitais, fundamentais, insubstituíveis.
Penedo tem sofrido desse mal.
Ao refletir sobre o assunto, tenho lembrado daquela passagem do filme de treinamento profissional chamado Visão do Futuro, em que andando por uma praia, o narrador vê um jovem que repete o gesto de agachar, pegar um objeto e lança-lo ao oceano. Aproxima-se dele e pergunta:
- “O que você está fazendo?”
- “Devolvendo estrelas do mar ao oceano”, responde o jovem.
- “Mas, são milhares delas que o oceano traz para as praias. Que diferença faz devolver algumas delas?”, acrescentou o narrador.
- “Para essa aqui faz diferença”, disse o jovem lançando a que estava em sua mão.
Todas as pessoas podem fazer diferença, mesmo com pequenas colaborações e participações, e ajudar Penedo a melhorar e ser uma cidade desenvolvida, justa e civilizada.
A soma de milhares de pequenas contribuições pode resultar numa grande diferença.
Penedo não nasceu do nada. Nada nasceu do nada. Tudo tem começo, meio e fim.
Penedo é resultado do trabalho incansável e ininterrupto dos índios, dos colonizadores, do invasor holandês, dos que por aqui passaram, fenícios, franceses, espanhóis, do africano escravizado.
Penedo é resultado de milhares de mãos que juntas, em determinado momento ou realizando seus ofícios em diferentes épocas, construíram Penedo.
Ninguém é resultado da combinação do nada com o seu talento. As pessoas ocupem elas os cargos que ocuparem, são resultado do trabalho, do esforço, do talento e do empenho de muitas outras pessoas.
É por essa certeza que fico observando nas manifestações públicas de nossas lideranças e elites intelectuais as críticas, muitas críticas, que reforçam o negativismo doentio e as análises de situações e interpretações de fatos do nosso cotidiano. E fica-se apenas nelas, nas críticas, observações e interpretações, o que, por si só, e apesar de seu valor como produção intelectual ou política, não ajuda a melhorar as coisas.
Muito raramente se vê analistas de situações políticas e sociais proporem sugestões práticas ou ações de cidadania para mudar as realidades negativas.
O que existe é muita gente discursando e teorizando e pouca gente sugerindo soluções ou agindo para ajudar a melhorar a nossa cidade.
Penedo precisa de intelectuais e líderes que ajudem a desenvolver na população a consciência de cidadania, do dever de participação em favor de melhorias na sociedade e solução dos problemas da cidade para que todos fiquemos menos dependentes dos governos.
A grande tendência é transferir responsabilidades por erros ou existência de problemas para outros. E aqui em Penedo, especialmente, quem vem de fora ou que esteja fora há muito tempo, responsabilizar a todos pelo que “encontrou”, “pelo estado em que a cidade se encontra”, “por tudo o que se deixou de fazer”.
É bom parar!
Eu, particularmente, estou cansada, irritada e confesso, furiosa com quem chega a Penedo depois de um longo e tenebroso inverno em que preocupou-se apenas com o seu próprio agasalho e acha-se no direito de criticar aqueles que aqui ficaram e, o que é mais grave ainda, aqueles que não nasceram em Penedo.
Eu fico muito ofendida quando alguém faz referência a Penedo e diz que as mazelas de Penedo foram “criadas” por quem não é penedense. Chegam ao impropério de afirmar que Penedo tem que ter um penedense no comando do seu destino.
A minha pergunta imediata é: E por que você não ficou em Penedo para defender a cidade e construir o seu destino? Por que você, que estufa o peito e hoje chega criticando quem ficou ou quem voltou pelo que deixou de fazer?
É muito bom viver e construir a própria vida sem pensar em Penedo e até mesmo, às vezes, maldizendo a cidade e sua gente, e depois de velhos, cansados, exaustos e até mesmo fracassados, voltar a Penedo, criticar, desmerecer os que não são penedenses colocando isso como se fosse um crime e querer dar lições aos que ficaram defendendo a cidade, construindo a cidade, mantendo, aos trancos e barrancos, a imagem de uma cidade que por mais mazelas que tenha continua sendo a velha, boa e histórica Penedo, Patrimônio do Brasil.
Durante muito tempo me questionei sobre o porquê de não ter nascido em Penedo. Aqui nasceram meu avô Cesário Procópio dos Mártyres, no Sítio Araçá. Meu pai, José Vécio dos Mártyres, na Rua Joaquim Nabuco, número 349. Aqui nasceram meus filhos e minha neta. Por que não nasci em Penedo?
E encontrei a resposta. Não nasci em Penedo porque tive o privilégio de nascer a montante dessa cidade, num pequeno Povoado Saúde, em Sergipe, para então ser transportada na espuma das águas cálidas do Rio São Francisco e entregue a essa cidade nos braços do Bom Jesus dos Navegantes para ser uma voz a serviço dessa cidade e de seu povo.
Não sou penedense e muitos dos que construíram e continuam construindo Penedo não foram e não são penedenses e não se pode falar na história de Penedo omitindo nomes. Não se pode destruir histórias ou construir histórias a partir do nada.
Em sua época, a seu tempo, cada um, penedense ou não, cumpre seu papel na construção dessa cidade.
A única diferença que vejo é aquela que me mostra que uns ficam, lutam, sofrem e mantém a cidade para muitos que passam uma vida inteira longe de seus problemas, usufruindo do privilégio de ser penedense, e que às vezes aparecem para cobrar aquilo que não foi feito.
A esses: DANEM-SE!!!!

4 comentários 17 de Julho de 2007 às 18:04 Martha Martyres

17 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente. Eca!!!!!

Brasil, país do futuro!
Esta é uma expressão bastante comum. Ouvimos da maioria das pessoas quando querem se referir, principalmente, ao estágio de desenvolvimento da nação.
No entanto, esta expressão está longe de representar a realidade, já que é palpável a situação de miséria que atinge grande parte de nossa gente.
Nós dizemos: Brasil, país do futuro!, e o futuro do Brasil parece ainda mais comprometido quando voltamos nossa atenção para as gerações mais jovens.
Vejamos os dados do relatório anual da Infância e Adolescência divulgado pelo Unicef:
1.Cerca de 60 milhões de crianças e adolescentes vivem em famílias cuja renda não ultrapassa dois salários mínimos por mês. Destas, aproximadamente 30% estão em estado de miséria absoluta;
2. Existem 15 milhões de crianças subnutridas e outros 15 milhões estão fora da escola;
3. 16 milhões de trabalhadores menores recebem, em média, 20% do salário mínimo;
4. São registrados 250 mil óbitos por ano de crianças que não chegam a completar um ano de idade;
5. 125 mil crianças no Brasil não vivem sequer o primeiro mês de vida;
6. Em cada mil mulheres que dão à luz, 120 morrem por problemas decorrentes do parto;
7 30% da internações registradas são de crianças com menos de 2 anos;
8. A cada minuto morre uma criança no Brasil;
9. Temos cerca de 8 milhões de meninas entre 10 e 15 anos prostituídas;
10. Os programas sociais dos governos federal, estaduais e municipais não têm cumprido suas metas e nem diminuído as desigualdades;
Esses, são apenas alguns dados que expressam a dramática situação em qeu estão envolvidas as crianças e os adolescentes no Brasil.
A dolorosa realidade de meninas e meninos abandonados, de jovens delinqüentes ou viciados, da prostituição infanto-juvenil e outras perversões que cada vez mais comprometem o desenvolvimento do Brasil.
O espantoso numero de crianças e jovens analfabetos, sem assistência médica e alimentar, nada têm a ver com a idéia de um país do futuro e obriga a sociedade a uma mudança de mentalidade e visão do problema da criança e do adolescente.
Inicialmente tratados como caso de polícia para depois se transformarem em clientela de programas assistenciais, há hoje uma necessidade premente de romper com o preconceito de que criança e adolescente não sabem das coisas e não têm vontade própria. Acabou o “cale a boca, menino!”.
As políticas velhas, retrógadas e autoritárias não têm lugar nesse novo modelo de cidadania.
É claro que não é fácil romper com esse preconceito. Mudar a concepção em relação às crianças significa mudar em relação a nós mesmos.
Para alguns, que contam, inclusive, com a cumplicidade de uma parte considerável das autoridades constituídas, mais fácil é esperar que cheguem à maioridade para depois joga-los nas penitenciárias. Aguns chegam a dizer que “ pau que nasce torto, morre toro”, e nem imaginam que recebem hoje o que lhes foi dado ontem.
As crianças, os jovens “bandidos” que estão à solta por aí, que assaltam a mão armada e matam, que traficam, que roubam e torturam, são aqueles que ontem não tiveram acesso às políticas públicas que pudessem oferecer um caminho diferente do da criminalidade.
É óbvio que todos nós, em algum momento, refletimos sobre a situação das crianças e adolescentes, principalmente quando lemos o jornal, ouvimos programas de rádio ou assistimos ao noticiário da tv. Lamentamos, nos horrorizamos, nos insurgimos contra os dirigentes que não tomam providências, mas dobramos o jornal, desligamos o rádio ou a tv e vamos cuidar de nossas vidas. Apenas a reflexão e a indignação não bastam!
É preciso que haja uma mobilização maciça da sociedade no sentido de considerar crianças e adolescentes não apenas índices de estatísticas ou clientes de programas sociais. É preciso que a sociedade reconheça que crianças e adolescentes são cidadãos e que a eles sejam assegurados os direitos que todos nós queremos ter respeitados.
Os primerios passos para essa mudança de mentalidade em nosso país foi a partir da Constituição Federal que dedica um capítulo especial à questão e define que “é dever da família, da sociedade e do estado, assegurar à criança e ao adolescentes, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à prifissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de coloca-las a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.”
A Constituição, regulamentada pela Lei nº 8.069/90 – Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que completa 17 anos nesta sexta-feira, 13 de julho (!) estabelece que nenhum outro problema no Brasil atual é mais importane do que o atendimento às necessidades e potencialidades de sua geração mais jovem.
Infelizmente, algumas autoridades insistem em dizer que o Estatuto é utópico e a lei para primeiro mundo.
O primeiro mundo não convive com dados tão brutais como os que estão no relatório do Unicef. Nossa legislação reflete uma tendência mundial moderna, a de “ cuidar das crianças, dos jovens, dos idosos e do meio ambiente”, mas a realidade é outra.
Nos ricos corredores do Congresso Nacional, tem “lobby” representando a sociedade brasileira para a diminuição da maioridade penal. É uma pena que a sociedade não enxergue que são os “maiores delinquentes” da política os responsáveis pelo aumento da criminalidade, da miséria, da fome, do desemprego e da corrupção.
Brasil. País do Futuro!
E como dizem os jovens em tom de crítica e nojo: ECA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

1 comentário 11 de Julho de 2007 às 16:28 Martha Martyres


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