EU NÃO SOU PENEDENSE. E DAÍ?
Há algum tempo quero fazer considerações sobre algo muito peculiar nos dias de hoje: a necessidade que certas pessoas têm de achar que são únicas, vitais, fundamentais, insubstituíveis.
Penedo tem sofrido desse mal.
Ao refletir sobre o assunto, tenho lembrado daquela passagem do filme de treinamento profissional chamado Visão do Futuro, em que andando por uma praia, o narrador vê um jovem que repete o gesto de agachar, pegar um objeto e lança-lo ao oceano. Aproxima-se dele e pergunta:
- “O que você está fazendo?”
- “Devolvendo estrelas do mar ao oceano”, responde o jovem.
- “Mas, são milhares delas que o oceano traz para as praias. Que diferença faz devolver algumas delas?”, acrescentou o narrador.
- “Para essa aqui faz diferença”, disse o jovem lançando a que estava em sua mão.
Todas as pessoas podem fazer diferença, mesmo com pequenas colaborações e participações, e ajudar Penedo a melhorar e ser uma cidade desenvolvida, justa e civilizada.
A soma de milhares de pequenas contribuições pode resultar numa grande diferença.
Penedo não nasceu do nada. Nada nasceu do nada. Tudo tem começo, meio e fim.
Penedo é resultado do trabalho incansável e ininterrupto dos índios, dos colonizadores, do invasor holandês, dos que por aqui passaram, fenícios, franceses, espanhóis, do africano escravizado.
Penedo é resultado de milhares de mãos que juntas, em determinado momento ou realizando seus ofícios em diferentes épocas, construíram Penedo.
Ninguém é resultado da combinação do nada com o seu talento. As pessoas ocupem elas os cargos que ocuparem, são resultado do trabalho, do esforço, do talento e do empenho de muitas outras pessoas.
É por essa certeza que fico observando nas manifestações públicas de nossas lideranças e elites intelectuais as críticas, muitas críticas, que reforçam o negativismo doentio e as análises de situações e interpretações de fatos do nosso cotidiano. E fica-se apenas nelas, nas críticas, observações e interpretações, o que, por si só, e apesar de seu valor como produção intelectual ou política, não ajuda a melhorar as coisas.
Muito raramente se vê analistas de situações políticas e sociais proporem sugestões práticas ou ações de cidadania para mudar as realidades negativas.
O que existe é muita gente discursando e teorizando e pouca gente sugerindo soluções ou agindo para ajudar a melhorar a nossa cidade.
Penedo precisa de intelectuais e líderes que ajudem a desenvolver na população a consciência de cidadania, do dever de participação em favor de melhorias na sociedade e solução dos problemas da cidade para que todos fiquemos menos dependentes dos governos.
A grande tendência é transferir responsabilidades por erros ou existência de problemas para outros. E aqui em Penedo, especialmente, quem vem de fora ou que esteja fora há muito tempo, responsabilizar a todos pelo que “encontrou”, “pelo estado em que a cidade se encontra”, “por tudo o que se deixou de fazer”.
É bom parar!
Eu, particularmente, estou cansada, irritada e confesso, furiosa com quem chega a Penedo depois de um longo e tenebroso inverno em que preocupou-se apenas com o seu próprio agasalho e acha-se no direito de criticar aqueles que aqui ficaram e, o que é mais grave ainda, aqueles que não nasceram em Penedo.
Eu fico muito ofendida quando alguém faz referência a Penedo e diz que as mazelas de Penedo foram “criadas” por quem não é penedense. Chegam ao impropério de afirmar que Penedo tem que ter um penedense no comando do seu destino.
A minha pergunta imediata é: E por que você não ficou em Penedo para defender a cidade e construir o seu destino? Por que você, que estufa o peito e hoje chega criticando quem ficou ou quem voltou pelo que deixou de fazer?
É muito bom viver e construir a própria vida sem pensar em Penedo e até mesmo, às vezes, maldizendo a cidade e sua gente, e depois de velhos, cansados, exaustos e até mesmo fracassados, voltar a Penedo, criticar, desmerecer os que não são penedenses colocando isso como se fosse um crime e querer dar lições aos que ficaram defendendo a cidade, construindo a cidade, mantendo, aos trancos e barrancos, a imagem de uma cidade que por mais mazelas que tenha continua sendo a velha, boa e histórica Penedo, Patrimônio do Brasil.
Durante muito tempo me questionei sobre o porquê de não ter nascido em Penedo. Aqui nasceram meu avô Cesário Procópio dos Mártyres, no Sítio Araçá. Meu pai, José Vécio dos Mártyres, na Rua Joaquim Nabuco, número 349. Aqui nasceram meus filhos e minha neta. Por que não nasci em Penedo?
E encontrei a resposta. Não nasci em Penedo porque tive o privilégio de nascer a montante dessa cidade, num pequeno Povoado Saúde, em Sergipe, para então ser transportada na espuma das águas cálidas do Rio São Francisco e entregue a essa cidade nos braços do Bom Jesus dos Navegantes para ser uma voz a serviço dessa cidade e de seu povo.
Não sou penedense e muitos dos que construíram e continuam construindo Penedo não foram e não são penedenses e não se pode falar na história de Penedo omitindo nomes. Não se pode destruir histórias ou construir histórias a partir do nada.
Em sua época, a seu tempo, cada um, penedense ou não, cumpre seu papel na construção dessa cidade.
A única diferença que vejo é aquela que me mostra que uns ficam, lutam, sofrem e mantém a cidade para muitos que passam uma vida inteira longe de seus problemas, usufruindo do privilégio de ser penedense, e que às vezes aparecem para cobrar aquilo que não foi feito.
A esses: DANEM-SE!!!!
4 comentários 17 de Julho de 2007 às 18:04 Martha Martyres