PARA ENTENDER OS LOUCOS O Porquê de Escrever

EPITÁFIO

5 de Setembro de 2007 às 17:24 Martha Martyres  | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 193

A bailarina inanimada e brilhante da minha caixinha de música dança, indiferente, ao som de uma sinfonia que não consigo identificar. Foi acionada pela mão trôpega que busca um objeto seu na mesa de cabeceira nessa estranha necessidade de sentir sua presença.
É madrugada, uma madrugada fria, longa e leviana, dessas que nos desnuda e sobrepõe os sentimentos à razão.
Penso em você, inerte sobre aquele volante; em seu coração explodindo dentro do peito onde tantas vezes adormeci, esfacelando-se diante do inevitável.
Penso em seu corpo imóvel, frio, enrijecido pela ação inexorável da natureza.
Na escuridão do quarto ainda não vencida pelos raios do sol, abraço meu próprio coração. Sua presença está ali, mais viva do que nunca, muito mais do que na última vez em que olhei nos seus olhos, ouvi sua voz e senti a textura de sua pele.
Choro de saudade, de dor, de pena de mim mesma, pela emoção que me toma cada vez que me perco nas conjecturas do que poderia ter sido e não foi.
Sinto-me só, absurdamente só. Estranhamente inteira, paradoxalmente lúcida.
Nas madrugadas costumo dar de cara comigo mesma, sem o peso da necessidade hipócrita de viver e conviver com pessoas às quais amo, admiro ou tolero e, às vezes, nem tanto!
Nas madrugadas, posso experimentar espaços e sentimentos sem a racionalidade que por vezes me oprime e a objetividade que me sufoca.
Penso na incontrolável necessidade de independência e liberdade e me pergunto do que elas me valem nesse momento.
Penso nos caminhos que o destino encarregou-se de traçar. Penso em você, nos momentos em que conjecturamos sobre a o universo e as suas possibilidades, sobre a êssencia das coisas e das pessoas. Lembro Augusto dos Anjos e seu poema preferido:
“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Sinto-me INDOMÁVEL, como você me definia. Do poema que originou o nome da Manchete.
“Minha alma é um cavalo selvagem
Correndo em disparada pela campina,
Sem sentido de direção.
Não tem raízes e está só,
Na imensidão da natureza.
Minha alma não tem argumentos
E nem razões;
Guia-se apenas pelo instinto,
Pelo cheiro do vento, da terra
E vai galopando a vida,
Sem esporas e sem rédeas.
A minha alma é livre, e, no entanto,
A mordaça do sistema aprisionou meu corpo
E meu cérebro.
E é por isso que a minha alma galopa
E meu coração escreve.”
Penso no amor. Penso nos homens que amei e me pergunto se amei esses homens ou a luta que imaginei ao lado deles. Um homem que me oferecesse partilhar com ele um grande projeto, eu o seguiria até o final do mundo. Não o homem. O projeto.
Penso em Deus e tenho vergonha de lhe pedir ajuda. Deus deve ser o inferno! Toda a esperança, todos os pedidos, todo o amor da humanidade, suas expectativas, tudo sobre os seus ombros. Que peso!
Somos todos egoístas. Estamos sempre pedindo a Deus. Seja lá o que for que pedimos, mas estamos sempre pedindo, pedindo, pedindo… nunca lembramos de partilhar com Ele as nossas alegrias, só os sofrimentos. Isso é amoral!
Penso na vida e fico imaginando quantos agonizam nesse momento, à beira da morte, e que não viveram. Não deixaram registros, não exploraram as emoções, não sonharam porque imaginavam que aqueles que têm todos os fatos estão com a razão. Nos braços da morte, só os sonhos nos acompanham. Os fatos ficam por aí e encontrarão companhia entre os que resistem aos sonhos e por isso mesmo não têm vida.
Penso no quanto o amei. Amei você ou o amor? Será que amei sua força por desprezar a fraqueza? Sua coragem, por abominar a covardia? Sua capacidade de vibrar com uma gota de sangue e emocionar-se diante de uma gota de orvalho numa pétala de rosa ou o sorriso de uma criança? Amei você ou amei o sentimento, a emoção? Agora não importa.
Você está presente como nunca em minha vida. Está em todos os momentos, em todos os meus sentidos, numa história em que a morte, mais uma vez, arvorou-se do direito de escrever o capítulo final.
O que sinto agora é uma saudade sem a esperança da chegada. Uma dor sem conforto. Tenho a ilusão de sentir seu cheiro. Posso ouvir o seu caminhar, o som de seus passos cadenciados e firmes, seu rosto moreno avermelhado pelo sol das diligências e vaquejadas, o sorriso escancarado, por vezes irônico e gozador. O brilho e a força do seu olhar escuro e profundo como um abismo.
Amei. Amei, sobretudo, os nossos grandes encontros e desencontros, a tristeza da impossibilidade, o gosto das despedidas, a esmagadora sensação da saudade. Amei os retornos, as reconciliações, a luta que imaginei ao seu lado.
O barulho da vida lá fora está me chamando. Preciso retomar minha rotina. Centenas, milhares de pessoas até, esperam pela minha voz, que precisa ser firme e transmitir as mensagens, as críticas, mas acima de tudo força, esperança, otimismo e alegria.
As notícias esperam por mim.
Você, hoje, mais uma vez, é notícia, mas a manchete emudeceu a minha voz.

” Parem os relógios
Cortem o telefone
Impeçam o cão de latir
Silenciem os pianos e com um toque de tambor tragam o caixão.
Venham os pranteadores
Voem em círculos os aviões escrevendo no céu a mensagem:
“Ele está morto”
Ponham laços nos pescoços brancos das pombas
Usem os policiais luvas pretas de algodão.
Pensei que o amor fosse eterno, enganei-me.
As estrelas são indesejadas agora, dispensem todas.
Embrulhem a lua e desmantelem o sol
Despejem o oceano e varram o bosque
Pois nada mais agora pode servir.” *
* Funeral Blues

Publicação arquivada em: Política

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4 Comentários Faça seu próprio

  • 1. Mônica C.  |  10 de Setembro de 2007 às 23:16

    Gostei do texto, Martha.
    Emocionante…
    Parece mesmo que só as mulheres amam assim, com tamanha doação e intensidade.
    Um abraço.

  • 2. Priscila  |  14 de Setembro de 2007 às 11:00

    Amei o texto, muito bonito.
    Peço sua autorização para usar uma parte dele na homenagem q vou fazer para minha avó em sua missa de sétimo dia na terça-feira. Ela morreu na quarta e foi enterrada ontem.
    Me idendifiqeui muito com ele, porque ela foi também um grande amor em minha vida.
    Um grande bjo.
    Te adimiro muito!
    E muita força pra nós!!!

  • 3. Cristina Moreira  |  22 de Setembro de 2007 às 10:49

    Marta
    O meu maior vínculo com Penedo hoje é este site. Adoro suas publicações. Se Penedo tivesse mais pessoas apaixonadas e fazendo a diferença nesta cidade como você com toda a certeza teríamos uma cidade bem melhor. Parabéns pela iniciativa de criar uma vínculo de pessoas que já se foram dessa cidade mas que nunca a esquecerão. Beijo grande

  • 4. Angélica R.  |  22 de Novembro de 2007 às 15:55

    Marta adoro seu programa e suas críticas em relação a educação, política e segurança!!!

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