Arquivo de Março de 2008

A Semana Santa vai morrer?

Fui desafiada por uma amiga de todas as horas: “Martha, haviam quatro “gatos pingados” na procissão do Senhor Morto que saiu às ruas já muito tarde da noite. Não podemos deixar morrer a Semana Santa em Penedo!”
A princípio, confesso, a vontade foi dizer: “E Jesus não já está morto mesmo!”, mas a verdade é que fica um formigamento a não me dar sossego quando se trata das coisas do Penedo. Ela, a minha amiga, tem razão. Há algum tempo vimos percebendo que as celebrações da Semana Santa em Penedo não passam de rituais simbólicos, celebrados para um grupo muito reduzido de pessoas que, a cada ano, vão perdendo o estímulo em participar, manter e repassar essa tradição do povo cristão e, por excelência, do povo penedense, cuja cultura e tradição quatrocentenária serve de referência para as mais eruditas considerações sobre Alagoas e o Brasil.
Vou voltar sim, ao passado! É nele que encontramos a razão de viver e não em um presente inconsciente ou em um futuro incerto.
Penedo, a cidade chamada de “rochedo da fé cristã, desde a sua primeira “paróquia”, o Curato de Santo Antonio (primeiro padroeiro de Penedo), até hoje, com uma Diocese quase centenária, passando pela mudança de devoção para Nossa Senhora do Rosário em consagração pela vitória contra os holandeses em 19 de setembro de 1645, é uma cidade que sofreu mudanças significativas em suas características religiosas materiais, com a construção de templos e imateriais, com suas Irmandades, Ordens, Confrarias e Associações.
Podemos citar, entre tantas, a Ordem Terceira de São Francisco, a Ordem Terceira da Penitência, a Irmandade do Santíssimo Sacramento, Irmandade das Almas, Pia União de Santo Antonio, Irmandade de São Gonçalo Garcia dos Homens Pardos, Confraria da Santíssima Virgem Maria Senhora do Rosário, Irmandade de São Benedito, Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Apostolado da Oração, Pia União das Filhas de Maria, Irmandade de Santa Cruz, Irmandade de Nossa Senhora das Dores, Confraria de São José, Associação dos Santos Anjos, Confraria das Almas, Irmandade das Almas, etc…, etc…, etc…
Quanta riqueza na vida religiosa do Penedo de outrora! Quantas dessas entidades religiosas registiram? Quanto, as poucas que ultrapassaram os obstáculos dos caminhos sinuosos da fé, ainda resistirão?!
Volto a lembrar de minha amiga: “Não podemos deixar a Semana Santa morrer!”. E faço o caminho de volta à infância.
Lembro de minha mãe, do ritual dos horários e das roupas especiais que usávamos para desde o Domingo de Ramos até a Procissão do Senhor Glorioso (essa sim, de madrugada), para participar de todas as celebrações.
Guardo na memória a emoção da Procissão do Encontro, do brilho daquele punhal cravado no coração da Virgem Maria em seu manto roxo e sua fisionomia marcada pela dor de ver seu filho caminhando para o calvário. Ainda soam em meus ouvidos o bater das matracas, tal qual o bater do tambor que empurra os soldados para a guerra. Ali, passei a associar a música não apenas à alegria, mas à dor, à incitação da revolta e do ódio, à morte.
Sentia uma curiosidade mórbida de saber quem, afinal, era Verônica, aquela mulher vestida de roxo, a cor da morte, cujos cabelos escondiam o seu rosto.
Em meus devaneios, achava que tantos homens, tantas pessoas que acompanhavam aquela imagem de Jesus carregando a cruz, podiam na verdade fazer alguma coisa de útil, como por exemplo, aliviar-lhe o peso ou secar suas feridas.
Tinha medo de, nessa época, ir à Igreja de São Gonçalo. Aquelas imagens cobertas com panos roxos, mais do que medo em meu imaginário, impunham-me uma sensação de impotência e um questionamento que me acompanhou a vida inteira, mesmo depois que descobrir Jesus…e Marx.
Venho de uma família católica. Meu avô, Cesário Procópio dos Mártyres, era um homem de fé. Em seu diário, onde escrevia dia-a-dia os acontecimentos de sua amada Penedo, já nas décadas de 40 e 50, ele lamentava a perda de tradições como a Procissão das Cinzas e a Procissão do Fogaréu que haviam em nossa cidade.
As celebrações começavam, na verdade, com a Procissão das Cinzas, na quarta-feira de Cinzas, saindo da Ordem Terceira, à qual ele pertencia, com mais de vinte andores. A Procissão do Fogaréu saía na Quinta-Feira Santa e representava a reconstituição da prisão de Jesus no Jardim de Getsêmani. A imagem do Senhor da Prisão, uma imagem de Roca em tamanho natural que se encontra na Igreja de São Gonçalo, era levada em um andor enquanto o trajeto era feito às pressas, com o povo acompanhando quase correndo, levando tochas e cantando a Ladainha de Todos os Santos.
Penedo, ano após ano, vai perdendo suas tradições. Hoje, o Brasil inteiro vai ao estado de Goiás para ver a Procissão do Fogaréu.
O que aconteceu? Por que as celebrações da Semana Santa perderam seu brilho? Por que as procissões saem tão tarde das igrejas a ponto de os fiéis preferirem rezar em suas próprias casas?
A procissão do Senhor Morto, que em minha infância saía da igreja por volta das sete horas da noite depois da cerimônia de descida da cruz na porta da Catedral, hoje sai no horário em que deveria sair, no Domingo, a procissão do Senhor Glorioso.
E não é apenas a Semana Santa. A festa da padroeira, Nossa Senhora do Rosário, não representa mais tradicional festa de padroeira de qualquer município cristão do interior do Brasil; o dia 13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, quando era realizada uma das procissões mais belas em nossa cidade, passa despercebido.
O que mudou? Mudamos nós, os cristãos? Mudou a Igreja? Mudou a fé? Nossa crenças e convicções? Ou mudaram, lamentavelmente, os nossos líderes?
Ano que vem, se vivas estivermos, minha amiga certamente vai, outra vez, me perguntar: “Nós vamos deixar a Semana Santa morrer?”
E eu, talvez, pense assim: Será que vale à pena lutar? A andorinha está com as asas chamuscadas e seu vôo comprometido. No horizonte, nem sinal da ressurreição da esperança!

2 comentários 27 de Março de 2008 às 17:55 Martha Martyres

OS MORTOS NA INFÂNCIA

Nos último meses temos acompanhado uma escalada de violência contra crianças e pré-adolescentes que deixa atônitos os moradores da antes pacata e ordeira Penedo.
Nessa situação atual o que mais nos causa espanto é que aqui, os casos seguem o índice histórico registrado nos grandes centros: as agressões psicológicas e físicas e a violência sexual é praticada por membros da própria família ou pessoas muito próximas.
Nas ruas, especialmente nas noites cálidas da cidade ribeirinha, invariavelmente cruzamos com crianças e pré-adolescentes que já não cheira cola, mas cheiram a cola, o que é possível sentir a dezenas de metros de distância. A prostituição infanto-juvenil continua manchando a paisagem ornamentada pelas palmeiras imperiais que se enfileiram na orla penedense.
Aos poucos, é possível observar que as crianças abandonadas desta cidade estão em toda parte: nas portas dos supermercados, nos pontos de ônibus, nos bares, nas praças, nas ruas…
E quem são essas crianças? De onde elas vêm?
São filhos abandonados pelos pais e familiares por incontáveis e, às vezes, inconfessáveis motivos.
Filhos de pais pobres que se escondem nas periferias e que não ganham sequer para comprar o pão diário e, também por esse motivo, meninos e meninas saem mundo afora numa tentativa desesperada de sobreviver. São vítimas da indiferença, da irresponsabilidade que se multiplica, da insensatez da procriação irracional.
“Nas grandes cidades, quando uma criança desce para o asfalto, a princípio é apenas mais um “menor abandonado”. Na semana seguinte, ele já arranjou outros companheiros de aventuras e se não é logo arrastado para uma Delegacia de Polícia ou alguma dependência do Juizado de Menores, termina atraído pelos marginais que formam verdadeiras quadrilhas para a exploração desse tipo de criança.”. O trecho do livro A Infância dos Mortos, de José Louzeiro, mostra uma realidade que hoje, infelizmente, não constatamos apenas nas grandes cidades. O livro fala da história de algumas crianças denominadas de “um bando de menores” e do desamor que os acompanha. Pequeninos que, por mais espertos que possam considerar-se, não possuem experiência e acabam, invariavelmente, sendo massacrados e pagando com a vida o amontoado de erros que vêm sendo cometidos pelo que chamamos de sistema.
A criança carente, faminta, drogada, prostituída, abandonada, é uma conseqüência natural da baixa renda do trabalhador brasileiro, produto do subdesenvolvimento da maioria esmagadora da população, seqüela da carência da educação do nosso povo.
Essas crianças são fruto dos dogmas equivocados da Igreja que condena o planejamento familiar, o uso de anticoncepcionais e da camisinha, faz campanha para reformar seus templos e ignora a situação de absoluta degradação da infância e da juventude exterminada nas escadarias seculares de seu patrimônio arquitetônico.
O que vemos no dia-a-dia das cidades, grandes metrópoles ou pequenos vilarejos, é um imenso abismo entre o exibicionismo do poder político e econômico e a mais expressiva miséria que leva à degradação humana.
Em ano de eleições municipais, gastar-se-ão milhões em campanhas políticas em uma verdadeira luta de vida ou morte pelo poder, enquanto as crianças perambulam pelas ruas sem escola, sem saúde, vítimas de lares desestruturados pelo desemprego, pela fome e pela inversão de valores morais que começa nas faixas mais abastadas da sociedade que impõe a tão propalada “opinião pública” como se fosse a mais extraordinária verdade.
Os Conselhos de Defesa de Direitos, Municipais e Tutelares, esvaziam-se na falta de compromisso com a causa e na ilegalidade que sustenta as conveniências políticas e torna suas ações inócuas, se contestadas à luz do direito.
As políticas públicas vão-se reduzindo a “cartões”, às “bolsas”, aos programas chamados de sociais que na verdade escondem a industrialização de uma massa sem qualidade política, sem capacidade de reencontro com a sua consciência crítica.
Nas crianças que cheiram a cola, nas meninas que se prostituem por dois reais na orla da cidade, ainda consigo sentir o cheiro dos sonhos.
Muitos heróis povoam os sonhos infantis e fico pensando que na realidade nua e crua de nosso cotidiano não precisamos de heróis. Precisamos apenas de pessoas com coragem e independência para fazer o que precisa ser feito.
Onde será que elas estão?

Adicionar comentário 11 de Março de 2008 às 17:55 Martha Martyres

Da esperança à indignação.

Nas ruas, na fila do banco, enquanto escolhemos produtos nas gôndolas dos supermercados, no ponto do ônibus ou nos encontros sociais, ouve-se apenas o murmúrio que vem das entranhas de um povo revoltado com a atual situação que envolve uma parte considerável dos políticos de Alagoas.
A voz do povo nas ruas qualifica essa situação de absurda, inaceitável, vergonhosa e tantos outros adjetivos, alguns impronunciáveis.
Estamos vivendo em Alagoas um tempo de muita indignação, mas, por isso mesmo, de profundas mudanças. É importante insistir neste ponto: um tempo de profundas mudanças.
Existe hoje um quase consenso que Alagoas nunca mais será o mesmo depois das denúncias de corrupção que envolvem os deputados estaduais, secretários de estado, prefeitos, vereadores, servidores, policiais e muitas outras “autoridades” alagoanas que durante muito tempo usufruíram de prestígio junto à população a ponto de até se elegerem pelo voto popular.
A indignação está nas ruas, no rosto dos que exigem a cassação dos mandatos dos políticos e a prisão dos envolvidos nessa quadrilha que assalta, há anos, os cofres públicos.
A indignação está nos lares, principalmente naqueles mais humildes onde os discursos das campanhas eleitorais entram como um raio de esperança.
E por falar em esperança, quantas vezes e em quantas campanhas políticas vimos muitos desses que hoje ocupam as páginas policiais pregar honestidade, seriedade, decência, transparência?
Quantas vezes vimos homens de punhos cerrados e erguidos, identificando-se com aqueles que lhes prometiam uma nova vida! Vimos esperança no olhar de mulheres prenhes de fato e de fé, numa resignação divina daqueles que esperam pela vitória final.
Agora, a indignação tomou o lugar da esperança e da fé e está nas ruas, nos lares, nas filas de desempregados, nos campos, nos corredores dos hospitais, na violência das ruas, na miséria e na fome que poderiam ser combatidas com programas financiados pelos duzentos e oitenta e tantos outros milhões roubados do povo alagoano.
As denúncias de corrupção geram protestos, revolta, mas é preciso lembrar que estamos vivendo, também, um tempo de liberdade, de democracia. É preciso não esquecer que as denúncias estão ao alcance da sociedade em todos os meios de comunicação e que a informação é a única forma de constranger os desonestos.
Estamos em um ano de eleições. Dentro de poucos meses os ilusionistas estarão novamente nos palanques na tentativa de ludibriar os eleitores com suas promessas mágicas e seus discursos demagógicos. Agora, é a hora de o eleitor exigir a inversão do ônus da prova. Nada de cobrar de nós a responsabilidade de escolher bem e blábláblá…, os políticos, nessa eleição, principalmente esses que são freqüentadores assíduos das páginas policiais, terão que provar que são inocentes e, de preferência, honestos. E sabem o que diz a voz do povo nas ruas: Essa é uma missão impossível!

1 comentário 5 de Março de 2008 às 16:13 Martha Martyres


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