Arquivo de 11 de Março de 2008

OS MORTOS NA INFÂNCIA

Nos último meses temos acompanhado uma escalada de violência contra crianças e pré-adolescentes que deixa atônitos os moradores da antes pacata e ordeira Penedo.
Nessa situação atual o que mais nos causa espanto é que aqui, os casos seguem o índice histórico registrado nos grandes centros: as agressões psicológicas e físicas e a violência sexual é praticada por membros da própria família ou pessoas muito próximas.
Nas ruas, especialmente nas noites cálidas da cidade ribeirinha, invariavelmente cruzamos com crianças e pré-adolescentes que já não cheira cola, mas cheiram a cola, o que é possível sentir a dezenas de metros de distância. A prostituição infanto-juvenil continua manchando a paisagem ornamentada pelas palmeiras imperiais que se enfileiram na orla penedense.
Aos poucos, é possível observar que as crianças abandonadas desta cidade estão em toda parte: nas portas dos supermercados, nos pontos de ônibus, nos bares, nas praças, nas ruas…
E quem são essas crianças? De onde elas vêm?
São filhos abandonados pelos pais e familiares por incontáveis e, às vezes, inconfessáveis motivos.
Filhos de pais pobres que se escondem nas periferias e que não ganham sequer para comprar o pão diário e, também por esse motivo, meninos e meninas saem mundo afora numa tentativa desesperada de sobreviver. São vítimas da indiferença, da irresponsabilidade que se multiplica, da insensatez da procriação irracional.
“Nas grandes cidades, quando uma criança desce para o asfalto, a princípio é apenas mais um “menor abandonado”. Na semana seguinte, ele já arranjou outros companheiros de aventuras e se não é logo arrastado para uma Delegacia de Polícia ou alguma dependência do Juizado de Menores, termina atraído pelos marginais que formam verdadeiras quadrilhas para a exploração desse tipo de criança.”. O trecho do livro A Infância dos Mortos, de José Louzeiro, mostra uma realidade que hoje, infelizmente, não constatamos apenas nas grandes cidades. O livro fala da história de algumas crianças denominadas de “um bando de menores” e do desamor que os acompanha. Pequeninos que, por mais espertos que possam considerar-se, não possuem experiência e acabam, invariavelmente, sendo massacrados e pagando com a vida o amontoado de erros que vêm sendo cometidos pelo que chamamos de sistema.
A criança carente, faminta, drogada, prostituída, abandonada, é uma conseqüência natural da baixa renda do trabalhador brasileiro, produto do subdesenvolvimento da maioria esmagadora da população, seqüela da carência da educação do nosso povo.
Essas crianças são fruto dos dogmas equivocados da Igreja que condena o planejamento familiar, o uso de anticoncepcionais e da camisinha, faz campanha para reformar seus templos e ignora a situação de absoluta degradação da infância e da juventude exterminada nas escadarias seculares de seu patrimônio arquitetônico.
O que vemos no dia-a-dia das cidades, grandes metrópoles ou pequenos vilarejos, é um imenso abismo entre o exibicionismo do poder político e econômico e a mais expressiva miséria que leva à degradação humana.
Em ano de eleições municipais, gastar-se-ão milhões em campanhas políticas em uma verdadeira luta de vida ou morte pelo poder, enquanto as crianças perambulam pelas ruas sem escola, sem saúde, vítimas de lares desestruturados pelo desemprego, pela fome e pela inversão de valores morais que começa nas faixas mais abastadas da sociedade que impõe a tão propalada “opinião pública” como se fosse a mais extraordinária verdade.
Os Conselhos de Defesa de Direitos, Municipais e Tutelares, esvaziam-se na falta de compromisso com a causa e na ilegalidade que sustenta as conveniências políticas e torna suas ações inócuas, se contestadas à luz do direito.
As políticas públicas vão-se reduzindo a “cartões”, às “bolsas”, aos programas chamados de sociais que na verdade escondem a industrialização de uma massa sem qualidade política, sem capacidade de reencontro com a sua consciência crítica.
Nas crianças que cheiram a cola, nas meninas que se prostituem por dois reais na orla da cidade, ainda consigo sentir o cheiro dos sonhos.
Muitos heróis povoam os sonhos infantis e fico pensando que na realidade nua e crua de nosso cotidiano não precisamos de heróis. Precisamos apenas de pessoas com coragem e independência para fazer o que precisa ser feito.
Onde será que elas estão?

1 comentário 11 de Março de 2008 às 17:55 Martha Martyres


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