Arquivo de 27 de Março de 2008

A Semana Santa vai morrer?

Fui desafiada por uma amiga de todas as horas: “Martha, haviam quatro “gatos pingados” na procissão do Senhor Morto que saiu às ruas já muito tarde da noite. Não podemos deixar morrer a Semana Santa em Penedo!”
A princípio, confesso, a vontade foi dizer: “E Jesus não já está morto mesmo!”, mas a verdade é que fica um formigamento a não me dar sossego quando se trata das coisas do Penedo. Ela, a minha amiga, tem razão. Há algum tempo vimos percebendo que as celebrações da Semana Santa em Penedo não passam de rituais simbólicos, celebrados para um grupo muito reduzido de pessoas que, a cada ano, vão perdendo o estímulo em participar, manter e repassar essa tradição do povo cristão e, por excelência, do povo penedense, cuja cultura e tradição quatrocentenária serve de referência para as mais eruditas considerações sobre Alagoas e o Brasil.
Vou voltar sim, ao passado! É nele que encontramos a razão de viver e não em um presente inconsciente ou em um futuro incerto.
Penedo, a cidade chamada de “rochedo da fé cristã, desde a sua primeira “paróquia”, o Curato de Santo Antonio (primeiro padroeiro de Penedo), até hoje, com uma Diocese quase centenária, passando pela mudança de devoção para Nossa Senhora do Rosário em consagração pela vitória contra os holandeses em 19 de setembro de 1645, é uma cidade que sofreu mudanças significativas em suas características religiosas materiais, com a construção de templos e imateriais, com suas Irmandades, Ordens, Confrarias e Associações.
Podemos citar, entre tantas, a Ordem Terceira de São Francisco, a Ordem Terceira da Penitência, a Irmandade do Santíssimo Sacramento, Irmandade das Almas, Pia União de Santo Antonio, Irmandade de São Gonçalo Garcia dos Homens Pardos, Confraria da Santíssima Virgem Maria Senhora do Rosário, Irmandade de São Benedito, Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Apostolado da Oração, Pia União das Filhas de Maria, Irmandade de Santa Cruz, Irmandade de Nossa Senhora das Dores, Confraria de São José, Associação dos Santos Anjos, Confraria das Almas, Irmandade das Almas, etc…, etc…, etc…
Quanta riqueza na vida religiosa do Penedo de outrora! Quantas dessas entidades religiosas registiram? Quanto, as poucas que ultrapassaram os obstáculos dos caminhos sinuosos da fé, ainda resistirão?!
Volto a lembrar de minha amiga: “Não podemos deixar a Semana Santa morrer!”. E faço o caminho de volta à infância.
Lembro de minha mãe, do ritual dos horários e das roupas especiais que usávamos para desde o Domingo de Ramos até a Procissão do Senhor Glorioso (essa sim, de madrugada), para participar de todas as celebrações.
Guardo na memória a emoção da Procissão do Encontro, do brilho daquele punhal cravado no coração da Virgem Maria em seu manto roxo e sua fisionomia marcada pela dor de ver seu filho caminhando para o calvário. Ainda soam em meus ouvidos o bater das matracas, tal qual o bater do tambor que empurra os soldados para a guerra. Ali, passei a associar a música não apenas à alegria, mas à dor, à incitação da revolta e do ódio, à morte.
Sentia uma curiosidade mórbida de saber quem, afinal, era Verônica, aquela mulher vestida de roxo, a cor da morte, cujos cabelos escondiam o seu rosto.
Em meus devaneios, achava que tantos homens, tantas pessoas que acompanhavam aquela imagem de Jesus carregando a cruz, podiam na verdade fazer alguma coisa de útil, como por exemplo, aliviar-lhe o peso ou secar suas feridas.
Tinha medo de, nessa época, ir à Igreja de São Gonçalo. Aquelas imagens cobertas com panos roxos, mais do que medo em meu imaginário, impunham-me uma sensação de impotência e um questionamento que me acompanhou a vida inteira, mesmo depois que descobrir Jesus…e Marx.
Venho de uma família católica. Meu avô, Cesário Procópio dos Mártyres, era um homem de fé. Em seu diário, onde escrevia dia-a-dia os acontecimentos de sua amada Penedo, já nas décadas de 40 e 50, ele lamentava a perda de tradições como a Procissão das Cinzas e a Procissão do Fogaréu que haviam em nossa cidade.
As celebrações começavam, na verdade, com a Procissão das Cinzas, na quarta-feira de Cinzas, saindo da Ordem Terceira, à qual ele pertencia, com mais de vinte andores. A Procissão do Fogaréu saía na Quinta-Feira Santa e representava a reconstituição da prisão de Jesus no Jardim de Getsêmani. A imagem do Senhor da Prisão, uma imagem de Roca em tamanho natural que se encontra na Igreja de São Gonçalo, era levada em um andor enquanto o trajeto era feito às pressas, com o povo acompanhando quase correndo, levando tochas e cantando a Ladainha de Todos os Santos.
Penedo, ano após ano, vai perdendo suas tradições. Hoje, o Brasil inteiro vai ao estado de Goiás para ver a Procissão do Fogaréu.
O que aconteceu? Por que as celebrações da Semana Santa perderam seu brilho? Por que as procissões saem tão tarde das igrejas a ponto de os fiéis preferirem rezar em suas próprias casas?
A procissão do Senhor Morto, que em minha infância saía da igreja por volta das sete horas da noite depois da cerimônia de descida da cruz na porta da Catedral, hoje sai no horário em que deveria sair, no Domingo, a procissão do Senhor Glorioso.
E não é apenas a Semana Santa. A festa da padroeira, Nossa Senhora do Rosário, não representa mais tradicional festa de padroeira de qualquer município cristão do interior do Brasil; o dia 13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, quando era realizada uma das procissões mais belas em nossa cidade, passa despercebido.
O que mudou? Mudamos nós, os cristãos? Mudou a Igreja? Mudou a fé? Nossa crenças e convicções? Ou mudaram, lamentavelmente, os nossos líderes?
Ano que vem, se vivas estivermos, minha amiga certamente vai, outra vez, me perguntar: “Nós vamos deixar a Semana Santa morrer?”
E eu, talvez, pense assim: Será que vale à pena lutar? A andorinha está com as asas chamuscadas e seu vôo comprometido. No horizonte, nem sinal da ressurreição da esperança!

3 comentários 27 de Março de 2008 às 17:55 Martha Martyres


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