SORRIR OU CHORAR?
9 de Dezembro de 2008 às 18:38 Martha Martyres | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 987
É bobagem alguém ainda pensar que nada muda e nada se transforma.
Mas o que estou estranhando é a rapidez da transformação do meu amigo, José da Silva. O rapaz, quando nos encontramos casualmente em um dos restaurantes da cidade, começou trocando a sua habitual cervejinha gelada pelo uísquezinho com gelo e terminou transformando o nosso papo descontraído, inconseqüente, em um quase monólogo sério, responsável e conseqüente.
Para desenvolver sua tese ele me chamou a atenção, primeiro para a dificuldade de nos mantermos otimistas nesse país e, em seguida, afirmou: Ou se ignora propositadamente a duríssima realidade dos acontecimentos recentes ou seremos forçados a admitir que todos eles estão prenhes de uma comicidade trágica, capazes, inclusive, de gerar sentimentos conflitantes e neurotizantes em todos nós. – dito isto, calou-se um instante, observou meu olhar de perplexa curiosidade e esclareceu:
- Veja bem se não é engraçada a preocupação dos políticos conservadores e da classe empresarial quando alertam à Nação para a grave crise econômica mundial, em contraste com o otimismo do Presidente da República e de seu planejamento eleitoral, para 2010!
Não fiz nenhum comentário. Esbocei apenas um sorriso de concordância que o animou a continuar com a sua exposição.
_ Pois é, não posso deixar de achar paradoxalmente terrível que, enquanto isso ou apesar disso, o governo federal autorize a compra de instituições financeiras e empresas deficitárias, os empresários continuem burlando pactos sociais apoiados pela classe trabalhadora e os nossos parlamentares, os nossos congressistas continuem, impatrioticamente, aumentando seus subsídios, afora alguns outros milhões de reais gastos com as chamadas verbas indenizatórias que significam apenas mordomias, passagens de avião, apartamentos de luxo, etc…etc…. E agora , pasmem, a construção de um túnel unindo o Senado ao Palácio do Planalto. Parece coisa de pirata, não?”
Ainda tentei fazer ironia perguntando: e daí?, mas o José da Silva estava realmente empolgado e o resultado é que se tornou ainda mais veemente.
- Daí? Daí a existência do perigo de serem ultrapassados os limites da paciência das classes não favorecidas e que sofrem, sozinhas, apesar do Bolsa Família e do Bolsa Aluguel que está sendo gestado no Planalto, os sacrifícios destinados à manutenção dos privilégios escandalosamente absurdos.. Daí que o fausto de poucos e a miséria de muitos, definitivamente, não é uma situação de equilíbrio capaz de assegurar a tranquilidade deste país. Daí , urge as nossas lideranças se preocuparem menos com os defeitos dos opositores e mais com as ausências de escrúpulos dos poderes econômico e político. Dizem que a falta de juízo é um apanágio da juventude, mas o Brasil não é mais tão jovem e incapaz de assumir a condição de nação séria. É só querermos e, ligeirinho, teremos razões de sobra para esquecermos a extrema grosseria de Charles de Gaulle.
Entreguei-me à reflexão, logo após as despedidas de José, concluindo que ainda há gente desejando que nada mude e outros desejando antecipar as mudanças. Pensei longamente na eleição que aconteceu há pouco mais de dois meses e na eleição que virá daqui a dois anos.
Pensei no meu amigo, que trocou a cerveja pelo uísque, votou em político com uma larga folha de serviços prestados ao aperfeiçoamento da corrupção e que discute política e economia em nível nacional esquecendo-se que tudo começa e tudo termina no quintal de nossas casas.
Ele tem suas razões, mas, diante da demonstração de sua sofisticada análise política nacional, fiquei sem saber se devo encarar os fatos mencionados sorrindo ou chorando.
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