CEIÇA CRUZ Uma poetisa penedense
(Prefácio do livro de poesias da poetisa penedense Ceiça Cruz)
Aprendi com o mestre Hildo Machado (HM) uma lição inesquecível: nunca recuse um convite para falar de sentimentos. “Esse – dizia ele – é um exercício que nos enriquece.”
A Ceiça Cruz elegeu-me (escrevi em clima eleitoral) prefaciadora de seu livro de poesias e, ao aceitar o convite, ou melhor, o desafio, o primeiro pensamento foi sobre o quanto nós mulheres somos corajosas. Nesse caso, Ceiça, em expor seus mais íntimos sentimentos e sonhos. Eu, em ariscar uma análise desta envergadura.
Ceiça Cruz entrou em minha sala, lá na Penedo FM, com uma pasta nas mãos, contendo seus escritos, e os olhos brilhantes. Ao estender as mãos para entregar-me a pasta, Ceiça entregou-me a sua intimidade.
Como se sente alguém diante das emoções alheias, dos segredos, dos sentimentos extraídos do fundo da alma e revelados no SILÊNCIO DA NOITE, sem o menor pudor?
Esses sentimentos, essas emoções, esse despudor, essa alma despida, é poesia! Um não sei quê contido, palavras engasgadas que jorram diante da primeira oportunidade que lhes é oferecida.
Percorri, incansável, madrugada a dentro, a poesia sublime de Ceiça Cruz, as palavras datilografadas (que bom que a velha máquina de escrever ainda resiste!) do livro que tem como título NO SILÊNCIO DA NOITE.
Quando escrevemos, materializamos pensamentos. Quando escrevemos poesia, estamos materializando sentimentos, emoções. Lendo a poesia de Ceiça Cruz é possível perceber esse processo quase físico porque nela afloram seu amor, sua tristeza, sua alegria, sua saudade, seu pesar, sua sensibilidade.
NO SILÊNCIO DA NOITE tudo acontece, porque a noite é encanto, magia. É NO SILENCIO DA NOITE que a terra palpita, que se roçam as folhas, que se aconchegam os pássaros, que brilha o luar. E tudo isso porque a noite é como o amor. Porque a noite foi feita para os amantes, para as serenatas, para as confissões.
E eu estava ali, na madrugada, NO SILENCIO DA NOITE, com a sensação ao mesmo tempo prazerosa e incômoda de estar usurpando o lugar de algum confidente íntimo.
Deparei-me com a dedicatória ao seu esposo Hilton e a cumplicidade explícita que embasa e permeia a parceria e o crescimento intelectual dos que se amam. Viajei. Uma viagem feita com o coração. Revivi suas Memórias e suas Lembranças. Estive no Saramém, na Foz do Velho Chico. Atravessei a Ilha do Funil. Percorri caminhos verdejantes sentindo a chuva molhar meu corpo e o canto do sabiá encher os meus ouvidos. Fui menina, mulher, anciã. Segui Pegadas, enveredei pelos mistérios da ondas, do encanto da lua cheia e de um extraordinário amanhecer.
Quem disse que não é possível enveredar pela alma de uma mulher? Basta ler a sua poesia!
Quem disse que não é possível sentir o palpitar das pedras? Basta ler Rochoso, Minha Terra, O Penedo de Pedras, terra rochosa que o Velho Chico ampara e contempla.
A poesia de Ceiça Cruz é um mergulho literário nas águas do São Francisco, e em todas as vezes em que me entreguei às águas do velho Opara, gozei da paz.
Essa é a sensação que tive ao ler NO SILENCIO DA NOITE.
A única dúvida que emerge comigo desse mergulho é sobre se é crime, pecado ou castigo render-se à chama sublime do amor!
Ao nos presentear com sua poesia, ao fortalecer o garimpo cultural de Penedo, Ceiça Cruz deixa uma lição: Não. Definitivamente não somos frágeis. Somos Mulheres!
1 comentário 10 de Março de 2009 às 17:13 Martha Martyres