PARA ENTENDER OS LOUCOS

Loucos necessitam da loucura para se justificar, para se realimentar. O paranóico que acusa a todos à sua volta de paranóia, está apenas criando ambiente e clima onde sua enfermidade torna-se legitimada e até mesmo necessária. Até sua irritação só se manifesta diante da irritação do próximo. Qualquer reação que fique enrustida será imediatamente copiada.
Bem, não quero e não vou fazer uma conferência sobre os mistérios da alma humana porque não tenho autoridade para isso, mas me refiro a determinados episódios que exercem sobre certos espíritos uma influência doentia.
São essas tais situações externas, dramatizadas pela angústia, pela insegurança, pela prepotência e pela opressão que mudam o curso da história de uma cidade ou de uma comunidade.
Vamos considerar como exemplo o caso da Polônia. Lembram do sindicato Solidariedade? Era um sindicato formado por mais de 10 milhões de membros. Era um movimento não violento que tentava obter através de greves e manifestações pacíficas uma abertura no rígido regime imposto pelo socialismo soviético. Então, por que o governo soviético da época, através do exército polonês, criou todo aquele clima de neurose e terror na Polônia e que repercutiu no resto do mundo? Porque em um sistema repressivo não se correm riscos desnecessários. Um regime autoritário não sabe manter uma negociação com um movimento não violento sem que para isso deixe de ser autoritário.
Se um ditador senta à mesa de negociação, deixa de ser ditador. Se os ditadores pretendessem fazer política, não seriam ditadores. Se um machão avaliasse que existem outras formas de manter uma relação com uma mulher, não seriam machões. É aquela velha estória de que bandidos estão sempre armados, com o dedo no gatilho.
Analisemos o governo atual. Anos atrás, aqueles que hoje são governo invadiam nossas casas dizendo-se acuados, perseguidos, injustiçados, e armaram novas regras para o jogo. Hoje, preocupados com o esfacelamento do próprio governo, com a prática corriqueira daquilo que eles próprios condenaram a vida inteira, tentam, desesperadamente manter o governo e sobretudo o poder. Agora são eles que acusam, encurralam e perseguem.
O nosso governo sabe fazer o jogo. O nosso governo exacerba ao ânimos porque somente nessas condições frenéticas tem a justificativa para agir com insanidade.
Assim é em determinados setores de nossa sociedade e, principalmente, como agem determinadas pessoas que, pela força dos cargos habituaram-se a ser obedecidas e que se auto-intitulam de concentradores de toda a honestidade do mundo.
Quando um louco precisa de um conflito para firmar-se, fatalmente ele consegue deflagrar esse conflito, principalmente quando seus parceiros nesse conflito estão sobressaltados com sua incapacidade de negociar com os contrários.
Os que abocanham o poder, seja no país, em casa, no trabalho, na escola ou no hospital, não admitem alterar a situação abrindo mão involuntariamente de seus benefícios.
Todo processo ditatorial contém dentro de si o germe dessa fantasia histérica de perder as rédeas do jogo.
Entender pessoas hoje em dia com o auxílio da psicologia é relativamente fácil. Entender o óbvio também não é difícil. A alma coletiva não difere muito da individual. Pessoas, partidos, municípios, estados, entidades e nações são regidos pelos mesmos mecanismos e leis.
Um filósofo francês dizia que a história é psicologia aplicada. Sendo assim, pode-se até não gostar de política, mas fica relativamente fácil perceber os loucos propagando suas loucuras.
Em Penedo, basta olhar em volta!

5 comentários 3 de Agosto de 2007 às 15:30 Martha Martyres

EU NÃO SOU PENEDENSE. E DAÍ?

Há algum tempo quero fazer considerações sobre algo muito peculiar nos dias de hoje: a necessidade que certas pessoas têm de achar que são únicas, vitais, fundamentais, insubstituíveis.
Penedo tem sofrido desse mal.
Ao refletir sobre o assunto, tenho lembrado daquela passagem do filme de treinamento profissional chamado Visão do Futuro, em que andando por uma praia, o narrador vê um jovem que repete o gesto de agachar, pegar um objeto e lança-lo ao oceano. Aproxima-se dele e pergunta:
- “O que você está fazendo?”
- “Devolvendo estrelas do mar ao oceano”, responde o jovem.
- “Mas, são milhares delas que o oceano traz para as praias. Que diferença faz devolver algumas delas?”, acrescentou o narrador.
- “Para essa aqui faz diferença”, disse o jovem lançando a que estava em sua mão.
Todas as pessoas podem fazer diferença, mesmo com pequenas colaborações e participações, e ajudar Penedo a melhorar e ser uma cidade desenvolvida, justa e civilizada.
A soma de milhares de pequenas contribuições pode resultar numa grande diferença.
Penedo não nasceu do nada. Nada nasceu do nada. Tudo tem começo, meio e fim.
Penedo é resultado do trabalho incansável e ininterrupto dos índios, dos colonizadores, do invasor holandês, dos que por aqui passaram, fenícios, franceses, espanhóis, do africano escravizado.
Penedo é resultado de milhares de mãos que juntas, em determinado momento ou realizando seus ofícios em diferentes épocas, construíram Penedo.
Ninguém é resultado da combinação do nada com o seu talento. As pessoas ocupem elas os cargos que ocuparem, são resultado do trabalho, do esforço, do talento e do empenho de muitas outras pessoas.
É por essa certeza que fico observando nas manifestações públicas de nossas lideranças e elites intelectuais as críticas, muitas críticas, que reforçam o negativismo doentio e as análises de situações e interpretações de fatos do nosso cotidiano. E fica-se apenas nelas, nas críticas, observações e interpretações, o que, por si só, e apesar de seu valor como produção intelectual ou política, não ajuda a melhorar as coisas.
Muito raramente se vê analistas de situações políticas e sociais proporem sugestões práticas ou ações de cidadania para mudar as realidades negativas.
O que existe é muita gente discursando e teorizando e pouca gente sugerindo soluções ou agindo para ajudar a melhorar a nossa cidade.
Penedo precisa de intelectuais e líderes que ajudem a desenvolver na população a consciência de cidadania, do dever de participação em favor de melhorias na sociedade e solução dos problemas da cidade para que todos fiquemos menos dependentes dos governos.
A grande tendência é transferir responsabilidades por erros ou existência de problemas para outros. E aqui em Penedo, especialmente, quem vem de fora ou que esteja fora há muito tempo, responsabilizar a todos pelo que “encontrou”, “pelo estado em que a cidade se encontra”, “por tudo o que se deixou de fazer”.
É bom parar!
Eu, particularmente, estou cansada, irritada e confesso, furiosa com quem chega a Penedo depois de um longo e tenebroso inverno em que preocupou-se apenas com o seu próprio agasalho e acha-se no direito de criticar aqueles que aqui ficaram e, o que é mais grave ainda, aqueles que não nasceram em Penedo.
Eu fico muito ofendida quando alguém faz referência a Penedo e diz que as mazelas de Penedo foram “criadas” por quem não é penedense. Chegam ao impropério de afirmar que Penedo tem que ter um penedense no comando do seu destino.
A minha pergunta imediata é: E por que você não ficou em Penedo para defender a cidade e construir o seu destino? Por que você, que estufa o peito e hoje chega criticando quem ficou ou quem voltou pelo que deixou de fazer?
É muito bom viver e construir a própria vida sem pensar em Penedo e até mesmo, às vezes, maldizendo a cidade e sua gente, e depois de velhos, cansados, exaustos e até mesmo fracassados, voltar a Penedo, criticar, desmerecer os que não são penedenses colocando isso como se fosse um crime e querer dar lições aos que ficaram defendendo a cidade, construindo a cidade, mantendo, aos trancos e barrancos, a imagem de uma cidade que por mais mazelas que tenha continua sendo a velha, boa e histórica Penedo, Patrimônio do Brasil.
Durante muito tempo me questionei sobre o porquê de não ter nascido em Penedo. Aqui nasceram meu avô Cesário Procópio dos Mártyres, no Sítio Araçá. Meu pai, José Vécio dos Mártyres, na Rua Joaquim Nabuco, número 349. Aqui nasceram meus filhos e minha neta. Por que não nasci em Penedo?
E encontrei a resposta. Não nasci em Penedo porque tive o privilégio de nascer a montante dessa cidade, num pequeno Povoado Saúde, em Sergipe, para então ser transportada na espuma das águas cálidas do Rio São Francisco e entregue a essa cidade nos braços do Bom Jesus dos Navegantes para ser uma voz a serviço dessa cidade e de seu povo.
Não sou penedense e muitos dos que construíram e continuam construindo Penedo não foram e não são penedenses e não se pode falar na história de Penedo omitindo nomes. Não se pode destruir histórias ou construir histórias a partir do nada.
Em sua época, a seu tempo, cada um, penedense ou não, cumpre seu papel na construção dessa cidade.
A única diferença que vejo é aquela que me mostra que uns ficam, lutam, sofrem e mantém a cidade para muitos que passam uma vida inteira longe de seus problemas, usufruindo do privilégio de ser penedense, e que às vezes aparecem para cobrar aquilo que não foi feito.
A esses: DANEM-SE!!!!

4 comentários 17 de Julho de 2007 às 18:04 Martha Martyres

17 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente. Eca!!!!!

Brasil, país do futuro!
Esta é uma expressão bastante comum. Ouvimos da maioria das pessoas quando querem se referir, principalmente, ao estágio de desenvolvimento da nação.
No entanto, esta expressão está longe de representar a realidade, já que é palpável a situação de miséria que atinge grande parte de nossa gente.
Nós dizemos: Brasil, país do futuro!, e o futuro do Brasil parece ainda mais comprometido quando voltamos nossa atenção para as gerações mais jovens.
Vejamos os dados do relatório anual da Infância e Adolescência divulgado pelo Unicef:
1.Cerca de 60 milhões de crianças e adolescentes vivem em famílias cuja renda não ultrapassa dois salários mínimos por mês. Destas, aproximadamente 30% estão em estado de miséria absoluta;
2. Existem 15 milhões de crianças subnutridas e outros 15 milhões estão fora da escola;
3. 16 milhões de trabalhadores menores recebem, em média, 20% do salário mínimo;
4. São registrados 250 mil óbitos por ano de crianças que não chegam a completar um ano de idade;
5. 125 mil crianças no Brasil não vivem sequer o primeiro mês de vida;
6. Em cada mil mulheres que dão à luz, 120 morrem por problemas decorrentes do parto;
7 30% da internações registradas são de crianças com menos de 2 anos;
8. A cada minuto morre uma criança no Brasil;
9. Temos cerca de 8 milhões de meninas entre 10 e 15 anos prostituídas;
10. Os programas sociais dos governos federal, estaduais e municipais não têm cumprido suas metas e nem diminuído as desigualdades;
Esses, são apenas alguns dados que expressam a dramática situação em qeu estão envolvidas as crianças e os adolescentes no Brasil.
A dolorosa realidade de meninas e meninos abandonados, de jovens delinqüentes ou viciados, da prostituição infanto-juvenil e outras perversões que cada vez mais comprometem o desenvolvimento do Brasil.
O espantoso numero de crianças e jovens analfabetos, sem assistência médica e alimentar, nada têm a ver com a idéia de um país do futuro e obriga a sociedade a uma mudança de mentalidade e visão do problema da criança e do adolescente.
Inicialmente tratados como caso de polícia para depois se transformarem em clientela de programas assistenciais, há hoje uma necessidade premente de romper com o preconceito de que criança e adolescente não sabem das coisas e não têm vontade própria. Acabou o “cale a boca, menino!”.
As políticas velhas, retrógadas e autoritárias não têm lugar nesse novo modelo de cidadania.
É claro que não é fácil romper com esse preconceito. Mudar a concepção em relação às crianças significa mudar em relação a nós mesmos.
Para alguns, que contam, inclusive, com a cumplicidade de uma parte considerável das autoridades constituídas, mais fácil é esperar que cheguem à maioridade para depois joga-los nas penitenciárias. Aguns chegam a dizer que “ pau que nasce torto, morre toro”, e nem imaginam que recebem hoje o que lhes foi dado ontem.
As crianças, os jovens “bandidos” que estão à solta por aí, que assaltam a mão armada e matam, que traficam, que roubam e torturam, são aqueles que ontem não tiveram acesso às políticas públicas que pudessem oferecer um caminho diferente do da criminalidade.
É óbvio que todos nós, em algum momento, refletimos sobre a situação das crianças e adolescentes, principalmente quando lemos o jornal, ouvimos programas de rádio ou assistimos ao noticiário da tv. Lamentamos, nos horrorizamos, nos insurgimos contra os dirigentes que não tomam providências, mas dobramos o jornal, desligamos o rádio ou a tv e vamos cuidar de nossas vidas. Apenas a reflexão e a indignação não bastam!
É preciso que haja uma mobilização maciça da sociedade no sentido de considerar crianças e adolescentes não apenas índices de estatísticas ou clientes de programas sociais. É preciso que a sociedade reconheça que crianças e adolescentes são cidadãos e que a eles sejam assegurados os direitos que todos nós queremos ter respeitados.
Os primerios passos para essa mudança de mentalidade em nosso país foi a partir da Constituição Federal que dedica um capítulo especial à questão e define que “é dever da família, da sociedade e do estado, assegurar à criança e ao adolescentes, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à prifissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de coloca-las a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.”
A Constituição, regulamentada pela Lei nº 8.069/90 – Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que completa 17 anos nesta sexta-feira, 13 de julho (!) estabelece que nenhum outro problema no Brasil atual é mais importane do que o atendimento às necessidades e potencialidades de sua geração mais jovem.
Infelizmente, algumas autoridades insistem em dizer que o Estatuto é utópico e a lei para primeiro mundo.
O primeiro mundo não convive com dados tão brutais como os que estão no relatório do Unicef. Nossa legislação reflete uma tendência mundial moderna, a de “ cuidar das crianças, dos jovens, dos idosos e do meio ambiente”, mas a realidade é outra.
Nos ricos corredores do Congresso Nacional, tem “lobby” representando a sociedade brasileira para a diminuição da maioridade penal. É uma pena que a sociedade não enxergue que são os “maiores delinquentes” da política os responsáveis pelo aumento da criminalidade, da miséria, da fome, do desemprego e da corrupção.
Brasil. País do Futuro!
E como dizem os jovens em tom de crítica e nojo: ECA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

1 comentário 11 de Julho de 2007 às 16:28 Martha Martyres

CONSTATAÇÃO

Como é ruim ter consciência em uma manhã assim!
Acordei cedo e nem a chuva fininha que caía me demoveu da idéia de ver a cidade acordando.
Percorri as ruas, olhei o Velho Chico tranqüilo, correndo lentamente em direção ao mar, vi pescadores em suas canoas, mulheres indo para a missa, um cachorro solitário sentado à porta do Convento observando a entrada, um arco-íris desenhado no céu e uma criança descalça, olhar faminto, vestindo “camisa de candidato”, que me estira a mão e pede “dez centavos”,
É muito triste ter consciência em uma manhã assim.
Tenho vontade de chorar. Paro na padaria e compro pão quentinho. Sigo para casa, ligo a cafeteira, mas o estômago está embrulhado. Perdi a fome.
Amanhã, por estas horas, estarei tomando o caminho do trabalho. Tenho notícias a dar! Notícias de crimes, fome desemprego, miséria, corrupção.
Aquela criança, amanhã, pode estar no centro das manchetes que vou anunciar, como mais uma vítima de todas essas mazelas reais.
Esbarro na sensação de que o mundo ainda não aprendeu nem aprenderá e me pergunto se vale à pena continuar, lutar, falar, escrever, participar, esbravejar por cidadania ou tentar compreender em profundidade a dimensão da revolução que coloca o homem no centro e na medida de todas as coisas terrenas.
Estamos morrendo, estamos matando. Estamos perdidos!
E o homem quer continuar matando. Principalmente aqueles que se dizem acima das divergências e fazem acordos e pactos consubstanciados naquilo que chamam de “um programa capaz de libertar o podo da opressão política e econômica”.
O homem quer continuar matando. Diretamente, através dos assassinatos diários, indiretamente aos miseráveis, aos famintos, aos sem-terra, aos sem-teto, aos sem-emprego, aos meninos e meninas prostituídos e drogados. Matará pela poluição, pelo envenenamento das águas, pelo stress, pela guerra. Vai matar pelos vazamentos das usinas atômicas, pela destruição dos rios, das florestas, pela tortura, pelo trabalho escravo, pela dependência e pela ignorância.
O homem vai continuar matando. O homem vai seguir matando pelo desencadeamento de forças que ele próprio não tem mais como controlar.
Os homens matam porque se eles não destruírem seus adversários não se sentem vitoriosos.
É muito triste ter consciência em uma manhã assim! Ser testemunha de um cenário como esse, de desigualdades sociais que relegam um número cada vez maior de crianças a sofrer em condições desumanas.
Aquela criança vestindo “camisa de candidato”, é apenas mais uma no meio de tantas que se engalfinham nas ruas, cheiram cola e esmalte na Orla, prostituem-se nos quiosques da beira do rio para ganhar dois reais, roubam pequenos objetos nos supermercados, nas bancas da feira livre!
Que aqueles que me ouvem no cotidiano do rádio ou acessam esse blog para ler o que escrevo, possam me perdoar e entender! Estou cansada!
Cansada de ter consciência, de esperar por uma mudança que não chega nunca. Cansada de “dar murro em ponta de faca”, de vender esperança e falar em cidadania para uma população que não tem acesso à saúde, como aquela mulher que entrou no meu estúdio com um filho morto nos braços porque não conseguiu atendimento médico ou como aquelas que vêm, todos os dias, em busca de uma cesta básica para matar a fome de sua família ou pedir um plástico para cobrir o barraco que os abriga da chuva!
Olho ao redor e vejo apenas a crescente e incontrolável degradação humana.
Antes, eu tinha absoluta convicção de que conhecia todos os caminhos e todas as respostas. Assim, atirava-me no centro dos acontecimentos superestimando minha capacidade de viabilizar soluções. Ao fazer uma campanha de agasalho, um Natal Sem Fome; ao orientar uma mulher violentada para lutar pelos seus direitos e pela sua dignidade de pessoa humana, sentia-me fortalecida, até mesmo orgulhosa de minhas ações e experimentava uma gostosa sensação de paz. Hoje, sinto um grande desânimo e não há metáfora de andorinha que me motive.
Em sua música que atravessa as fronteiras do tempo, Cazuza disse que seus heróis morreram de overdose, numa referência a tantos grandes ídolos que se deixaram vencer pelas drogas psicotrópicas como a maconha, o LSD, a cocaína e tantas outras.
Penso que os meus heróis (gestores de muitos projetos nos quais acreditei, até porque sigo projetos e não homens!), também estão morrendo de overdose, um a um: a overdose da droga do poder.
Nesse mundo de tantos e inconfessáveis interesses, tenho sentido não apenas fadiga, mas uma vergonha íntima, profunda, incomensurável.
“Uma vez desencadeada, a soberania da conveniência política não tem limites”, segundo Rui Barbosa.
Perderam-se os limites, perdeu-se a razão.
Estamos todos perdidos!

2 comentários 18 de Maio de 2007 às 16:32 Martha Martyres

Feliz Aniversário Penedo!

PENEDO. Fui construída no clima mágico desta cidade. Penedo do Sítio Araçá, onde vivi minha infância e os melhores momentos de minha vida. Penedo do meu Rio São Francisco, Penedo do navio Comendador Peixoto, com seu apito que me fazia tremer de medo, mas que exercia sobre mim um enorme fascínio, fazendo-me sonhar com as viagens rio acima. O esplendor de suas luzes, a roupa engomada de seus tripulantes cheias de botões dourados, o tubo preto de sua chaminé, parecem acenar e seduzir.
Penedo das fábricas de beneficiamento de arroz enfileiradas em frente ao cais, das montanhas de cascas de arroz onde eu brincava de pula-pula observando o movimento frenético das canoas que traziam progresso para o comércio de nossa cidade.
Penedo do Mercado Municipal de onde fui levada por uma cigana aos três anos de idade. Das bancas e lojas, do “Seu” Aprício, do Caxiado, do Mangabeira, do “Seu” Luiz…Penedo da feira, do burburinho, das bancas de Otacílio Xavier, o Oxis, de Dona Virgínia, Dona Maria, “Seu” Eugênio…dos barracões do Mané Rosendo, onde comprávamos os recentes lançamentos de tamancos!, dos banhos nas calhas do Teatro Sete de Setembro em dias de chuva!
Penedo das lendas, do túnel do convento, da procura de dobrões de ouro pela suposta trilha de fuga dos holandeses, das expedições à rocheira, aos velhos casarões abandonados. Penedo da Banca do Peixe com pedras avermelhadas cheias de pintinhas brancas, do cheiro de peixe, do cheiro de gente! Penedo do bolachão da Padaria Primor, quentinho, saboreado com manteiga do sertão comprada na esquina do Pavilhão, na venda do “Seu” Cândido.
Penedo da Floriano Peixoto, da missa aos domingos na Igreja de São Gonçalo, das árvores enfileiradas como se fossem guardiões de nossa cultura, podada por causa dos lacerdinhas, como foram podados tantos dos nossos sonhos de progresso e desenvolvimento.
Penedo. Travessa Professor Henrique Tomaz, numero 2. Durante muitos anos, até a morte de minha mãe, esse foi o nosso endereço. Hoje, ao passar pelo “bequinho”, tenho a estranha sensação de perda. Não consigo me situar no espaço que tantas vezes percorri, ora com um livro nas mãos, pois tinha o hábito de estudar andando e em voz alta, ora brincando de “bicho”, de boneca, correndo com Tintureiro, meu primeiro cão, ou enfrentando os “mijões” que utilizavam o nosso bequinho sem o menor pudor para satisfazer suas necessidades fisiológicas durante os festejos de Natal, Ano-Novo e carnavais que eram realizados na avenida Floriano Peixoto.
Penedo da roda gigante do Pessoa, montada em frente ao Teatro Sete de Setembro, do brilho de suas luzes, da ornamentação feita pelo Seu Zé Vécio por encomenda da Prefeitura Municipal. Eram árvores de natal enfeitadas de luzes e cores, papais-noéis gordinhos, bochechudos e rosados que sorriam carregando enormes sacos vermelhos cheios de presentes… e sonhos.
Penedo das barracas de sequilhos, amendoim torrado ou açucarado, embalados em coloridos barquinhos de papel, algodão doce, rolete de cana. Penedo dos carnavais com a banda de múscia tocando no palanque montado em frente às Lojas Paulista, das aparições do Zé Mulé, com suas roupas maravilhosas, brilhantes, cheias de plumas e paetés, do Zé Pereira, do carnavalesco Zé Pintinha e sua colossal alegria, do Bloco dos Caretas, com máscaras feitas com as sacolas de pão de minha mãe, bordadas em pontos de cruz.
Deixei de sair no bloco dos Caretas depois de um fato interessante. Eu, Sinhá Valda, Neno, Solange, Valter, Alberto Espinheira, Betânia Brasil, Elvira e Margarida fizemos um bloco para brincar o carnaval e armados com cabos de vassoura e vestidos com caretas feitas com os sacos de pão e roupas de saco de farinha de trigo conseguidas na Padaria Primor, saimos percorrendo as ruas da cidade. Nas imediações da Catedral, o grupo daquele “território” ( leia-se Valdi Fernando e sua turma) jogou sobre nós o conteúdo de penicos. Foi um desastre. Durante dias, tomei banhos e mais banhos, mas parecia que o cheiro continuava entranhado na minha pele, nos meus cabelos, no meu nariz. A partir daí, substituimos o bloco dos caretas pela guerra dos mijões e das espadas durante os festejos juninos. Reuníamos uma turma formada pelos meninos e meninas que moravam na região da feira livre, Santa Cruz, rua das Cajazeiras e Ulisses Batinga, contra os que moravam na parte de cima, ou seja, na rua Sete de Setembro, Praça da Catedral, rua Dâmaso do Monte, rua Fernandes de Barros, e da Quitanda, e a guerra estava formada. Só não permitíamos a participação dos meninos da zona. Éramos, como ainda hoje somos, preconceituosos. Na nossa guerra, tínhamos uma vantagem: as barracas de venda de fogos ficavam na hoje conhecida Feira da Laranja, bem próximo à Banca do Peixe e dos Barracos do Mané Rosendo. Quando a guerra começava, a turma da rua de cima ficava impossibilitada de comprar fogos porque nós interditávamos todas as descidas com barreiras no Beco da Goiaba, na Pedra da Arara e nas ruas da feira. Era como se estivéssemos num campo de batalha. Como eram grandes os nossos horizontes!!
Penedo. Da Casa São Francisco, minha primeira escolinha, com Dona Crizantina, de onde voltei para casa aos prantos depois de descobrir que “tinha menino homem” estudando também! Do colégio Imaculada Conceição, da Irmã Genoveva, minha professora do Jardim Infantil. Do meu Gabino Besouro, do Colégio Estadual, das boas lembranças de momentos e colegas, dos professores a quem devo o que sou porque eles embasaram a minha formação e nortearam toda a minha vida, minhas emoções, minha cidadania.
Penedo dos seus personagens. Penedo do Caxixi e do Pilinha, da Dai, da Maria Esmulambada, da Carmelita e tantos outros…
Penedo da ladeira do convento, onde tantas vezes subi correndo e desci de carrinho de rolimã e patinete. Dos buracos feitos no muro formando uma escada para ter acesso ao pátio e roubar amoras, mesmo com os gritos e ameaças de Dona Alci e Dona Eutália e o medo do flagrante dos frades. Nós também tínhamos um medo danado de aparecer o famoso “frade sem cabeça”, do qual ouvíamos falar em mais uma das tantas lendas de Penedo!
Penedo, onde vivi minha adolescência observando as sutilezas de um país que vivia uma ditadura e vivenciando um conflito constante entre o pensar sobre o que estava errado e aceitar a realidade que se impunha pela condição sócio-econômica-política do cotidiano, e que estavam muito além dos comícios da Floriano Peixoto ou das produções veiculadas no serviço de auto-falente de Luis Fausto ou da Emissora Rio São Francisco. Aliás, foi na Emissora Rio São Francisco, aos cinco anos de idade, levada pelo penedense Zé Abílio, que me apresentei pela primeira vez no rádio: “Batatinha quando nasce, se esparrama pelo chão…” Caras lembranças!
Aqui aprendi que existem dois mundos: aquele que idealizamos e pensamos que pode ser e aquele que se desenha todos os dias de nossas vidas.
Nessa terra do Penedo estão secas as minhas lágrimas, absorvidas por um chão de pedra que me ensinou a ser forte. Nas paredes seculares de seus casarões, ainda ecoam meus gritos de liberdade e insurreição que alimentam meu espírito e me impedem de abandonar a luta. Em seu horizonte, ainda estão os meus sonhos, enfeitados pelas cores do pôr-do-sol, regados pelas águas do Velho Chico.
Nessa terra de meu avô e meu pai nasceram meus filhos e no túmulo do Cemitério de São Gonçalo do Amarante, erguido na área onde deu-se a mais sangrenta batalha dos penedenses na luta contra os holandeses, quero ser enterrada.
Nesse aniversário de Penedo gostaria de ter o poder de expressar em palavras todo o meu sentimento em relação a essa cidade que é ao mesmo tempo fascinante e cruel, mas só consigo mesmo entabular uma conversa íntima e pessoal que nasce na madrugada, assim como eu, diante de um rio que vai aos poucos cobrindo-a com uma neblina que tem ares de boemia.
O brilho do luar de Penedo refletido nas águas do Rio São Francisco me guiou de volta e colocou-me em um caminho que, não sei se feliz ou infelizmente, não tem retorno.
Feliz Aniversário Penedo. Minha terra, meu amor!!!!

14 comentários 11 de Abril de 2007 às 16:07 Martha Martyres

A política da intimação e da intimidação

Há 17 anos estamos no ar!
Há 17 anos prestamos serviço à comunidade penedense e sanfranciscana.
Em todos os momentos estivemos presentes na vida, no dia-a-dia de nosso povo, de nossa cidade, de nossa região.
Juntos, enfrentamos o fogo e a água. Ajudamos a apagar incêndios e auxiliamos pessoas ilhadas pelas águas das chuvas e das cheias do Rio São Francisco.
Juntos, buscamos a luz quando havia escuridão; a estrada, quando havia incerteza; os caminhos, quando havia indecisão.
Durante esses 17 anos que acabamos de comemorar, lutamos juntos por cidadania, questionando a inoperância e a ineficiência, denunciamos a deslealdade e o oportunismo.
Juntos, nós e o povo, nossos ouvintes, lutamos por dias melhores alicerçados pela fé e a esperança que movem o ser humano.
Quantas lágrimas de dor transformamos em sorrisos! Quanta emoção ainda ecoa nas paredes acústicas desses estúdios!
Aqui, acudimos mães desesperadas, homens indignados, mulheres vilipendiadas e crianças vitimadas pelo descaso, pela violência e insensatez do ser humano!
Quantas mães reencontraram seus filhos e filhos reencontraram suas mães através das ondas do rádio? Quantas famílias foram reunidas, perdoadas, redimidas? Quantos homens e mulheres conseguiram emprego e a possibilidade de sustentar dignamente suas famílias através de nossa prestação de serviço?
Foram tantos eventos! Dia das Mães, Dia dos Pais, Natal Sem Fome, Dia do Estudante, Dia do Motorista, Papai Noel das crianças carentes, ajuda aos idosos, leite para as crianças desnutridas, agasalhos para os que têm frio, alimento para os que têm fome!
Através de um trabalho reconhecido pela sociedade, ajuntamos parceiros para dar o melhor de si e de nós na luta por uma cidade mais justa e mais humana.
Através dos microfones desta emissora, levantamos paredes, sustentamos telhados, enveredamos pelos caminhos tortuosos da defesa inarredável da cidadania como defensores que somos, diariamente, daqueles que nos procuram, acreditam e confiam no nosso trabalho!
Quantos objetos devolvemos? Não contamos, não importa!
Sabemos apenas que prestamos serviço à sociedade honrando o compromisso e a missão que nos cabe como meio de comunicação.
É por tudo isso que hoje lamentamos a decisão de interromper uma relevante prestação de serviço ao nosso povo: a recepção e entrega de documentos e objetos perdios e/ou encontrados.
Por mais de 17 anos prestamos serviço devolvendo documentos e cidadania, pois é isso que o documento representa. Hoje, somos obrigados a interromper esse serviço.
Nunca, nem mesmo nos piores momentos em que tivemos de lutar contra a tirania e o cerceamento da liberdade de expressão e de direitos, fomos intimados como testemunhas de crimes que não presenciamos e mais ainda, não praticamos.
A intimação e a intimidação de funcionários dessa emissora é uma prática que não podemos aceitar.
Receber um documento encontrado por algum transeunte penedense passa a ser considerado no atual momento de nossa cidade, um ranstorno e um perigo ao qual não podemos expor os nossos funcionários.
Se a Polícia Civil, que em Penedo tem sido alvo de inúmeras reclamações por sua ineficiência, entende que receber um documento perdido/encontrado implica em prestar testemunho de um crime que supostamente tenha sido cometido, não podemos submeter nossos colegas a tal constrangimento.
Durante esses 17 anos de empresa e mais de 20 anos de rádio, espontaneamente testemunhei várias vezes em busca de justiça. Perdi a conta de quantas vezes encaminhei às autoridades policiais, ao Ministério Público e ao próprio Poder Judiciário elementos que permitiram que a tão propagada justiça fosse praticada.
Agora, as circunstâncias exigem que nos coloquemos na defensiva.
É claro que não deixaremos, jamais!, de prestar serviço à população e buscar a justiça. Não arredamos pé dos nossos ideais e nem de servir ao nosso povo, mas não vamos servir de munição para um comportamento autoritário, prepotente, trôpego e obsoleto, resquício de uma época que envergonha o nosso estado e mira na cidadania de nossa gente!
É claro que os incompreensíveis acontecimentos deixam dúvidas sobre as verdadeiras intenções. O que será que está motivando esse tipo de comportamento? A quem servem? O que esperam conseguir?
A essas perguntas, devemos acrescentar outras: por que a população tem reclamado tanto do atendimento na Delegacia de Penedo? Por que em determinados horários a delegacia está fechada a chave? Por que há mais de trinta dias não se apura casos graves e de conhecimento da sociedade como, por exemplo, estupro envolvendo menores, segundo denúncia do Conselho Tutelar? Por que a relação de bens (jóias e objetos) recuperados pela Polícia Militar e entregues da Delegacia de Penedo mediante recibo não corresponde aos bens recebidos pela vítima?
Enquanto uma funcionária desta emissora é intimada como testemunha de um suposto crime por ter recebido um documento na recepção e cumprido o seu papel de divulgar e entrega-lo ao dono, os verdaeiros bandidos, aqueles que matam, assaltam, estupram e aterrorizam a população estão à solta nas ruas da cidade. Por quê?

6 comentários 14 de Março de 2007 às 17:48 Martha Martyres

Ronaldo Lopes no DER

O engenheiro penedense e ex-deputado Ronaldo Lopes (sem partido), toma posse na direção geral do Departamento de Estradas de Rodagem de Alagoas - DER nesta sexta-feira (23), às 11 horas, na sede do órgão, no Tabuleiro dos Martins, em Maceió.
Ronaldo Lopes tem larga experiência no setor público. Foi presidente da Cohab-AL no governo Divaldo Suruagy, superintendente regional da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba - CODEVASF e secretário de Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Naturais no governo Ronaldo Lessa.
Um relatório divulgado pela consultoria do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Semi-Árido Brasileiro (PRO-ÁGUA/SEMI-ÁRIDO) do Banco Mundial, que analisou a situação da gestão dos recursos hídricos em Alagoas, assinado pelo consultor Luiz Corrêa Noronha, no final do governo Ronaldo Lessa diz, textualmente, que “Hoje, de acordo com estudos elaborados pela ANA, os quais permitem comparar a situação da Gestão em todos os estados brasileiros, constata-se, de acordo com as conclusões destes consultores, que o Estado de Alagoas tem uma das melhores situações de Gestão de Recursos Hídricos no território nacional, estando entre os 10 (dez) Estados de melhor Gestão do país.”
Fontes ligadas ao Palácio República dos Palmares garantem que os critérios para a escolha de Lopes para o DER foram técnicos e éticos. Aliás, ética, competência e honestidade foram os critérios defendidos pelo governador Teotônio Vilela, quando em campanha, para a escolha de seus auxiliares.

1 comentário 22 de Fevereiro de 2007 às 14:35 Martha Martyres

Olhar Sobre o Rio

O sol se põe em terras sergipanas e eu me debruço sobre a Rocheira olhando o rio. É fim de tarde e começo de cheia. A água desce murmurosa e segue caminho para o mar em sua periódica inundação. Não importa, nesse caminhar, o que digam os técnicos e tecnocratas. Se há comissões que definem o tamanho de sua vazão, não podem impor a cor das suas águas e nem a velocidade com que percorre o caminho. Não importa o tempo de recorrência. Importa o agora, o presente, o instante.
Lanço meu olhar além da linha visível, sonho com o rio de minha infância.
São Francisco da minha vida! Vejo-me criança, peneira na mão: “cai cai tanajura na panela da gordura”. Vejo-me a percorrer a margem do rio, na Saúde, pescando de jereré, “ariando” panelas, colocando roupas para “quarar”, pulando das canoas que gentilmente permitiam que as fizéssemos de trampolim, nadando em braçadas largas para o estado de graça de voltar ao útero de minha mãe.
Esse é o meu rio! Brinquedo da minha infância, amigo da adolescência, companheiro da maturidade.
Em meus devaneios, vejo as canoas singrando as suas águas. Posso sentir o cheiro dos bolinhos fabricados de massa de pó de arroz, do pirão feito com farinha, para pescar piabas; ouço o chiado dos cutelos raspando as tabocas para fazer os covos e meu estômago se anima ao captar o aroma do camarão torrado e da farinha quentinha no forno da casa de farinha.
Volto aos barrancos, à curva do rio, ao refúgio dos peixes. Xiras, traíras, piranhas, piaus, mandins, mussuns…e como se fizéssemos um pacto de sangue, o rio incorpora-se ao meu corpo, entranha-se na minha alma.
Meu coração desanda o ver o rio. Ora sou remanso, ora sou correnteza, ora sou água ou nem sei quem sou…
Ouço o ruído das águas correndo, os estalos da vegetação, o assobio dos pássaros.
E agora ele vem barrento, carregando consigo as cores de suas margens desmatadas pela ignorância e ambição dos homens. O rio não é como o homem, que tem como optar. Ele segue e deságua. Assinala sua presença em aflições e bênçãos, mas é fiel ao seu povo.
A enchente é o descanso do rio em seu leito e nele traz corpos colados ao seu ou que aguardam a hora de entrelaçar-se. É o seu leito que se abre, alaga o sertão, arrasta erva braba e mandacaru, traz ninho de cobra e tatu.
Suas águas vão passando. Carregam troncos, baronesas, árvores mortas, e o céu chora de emoção contribuindo para sua grandeza.
E o povo de suas margens emudece diante de sua força, faz festa, mede minuto a minuto a subida de suas águas. Os mais afoitos se alegram e se transformam na criança que fui. Pulam do cais, das canoas, experimentam a sensação sublime de flutuar sobre ele.
As cidades, os lugarejos vão ficando para trás e, de repente, lá na foz, o mar abre os braços numa demonstração de incontestável afeto.
Esse é o meu rio que busca revitalização e respeito e que, numa demonstração de solidariedade, vem trazer fartura para o povo que mesmo em suas margens tem fome e sede. Meu rio, nosso rio que vem mostrar aos homens que nenhum tipo de poder ou quantidade de dinheiro podem ser mais fortes do que a fé do povo e a força da natureza.
Quando as águas baixarem, São Francisco, o rio, terá cumprido o seu destino na integração nacional ofertando vida a milhões de brasileiros. São Francisco, o santo, vai descer do altar lá na Serra da Canastra e percorre-lo, até a foz, recontando os animais, ajuntando os que se perderam, curando os que ficaram feridos e colhendo ramos de arnica e carqueja, que são remédios para todos os males.

7 comentários 7 de Fevereiro de 2007 às 14:15 Martha Martyres

O Mestre Cesário e Sua Obra

Ernani Méro

“Pouco se tem falado sobre Cesário Procópio dos Mártyres, o valor maior que já surgiu em Penedo na arte de esculpir na madeira e decorar. Foi um gênio e não seria exagero dizer: “Cesário, o Aleijadinho Penedense.”
Eu era criança e já ouvia falar em Cesário. Aos 15 anos ingressei, e com que entusiasmo o fiz, na Ordem Terceira de São Francisco. Era a noite de 8 de Dezembro de 1940, quando das mãos de Frei Boaventura O.Fm, recebia o burel franciscano. Tudo ali me impressionava, todavia, a figura de asceta de Mestre Cesário calou em meu mundo de jovem. Comecei a admirá-lo e cada palavra sua, cada gesto tocava de cheio o meu ser. Cesário foi um exímio artista, um homem de oração, simples, humilde, grande sob todos os aspectos, culto, portador de um poder de criatividade ímpar. Podemos dele afirmar: “era um santo homem”.
Afirmo ser Cesário o “Aleijadinho Penedense”, porque não se contentou apenas em ser um copista esmerado, foi muito além: era um criador de estilo e o fez dentro da linha de uma gramática Barroca, destacando-se várias esculturas em madeira, ocupando lugar de destaque o Bom Jesus dos Navegantes de Penedo. Essa monumental escultura que saiu do seu cinzel privilegiado, traz não só a habilidade do seu manuseio como também foi um tipo por ele imaginado, bem conforme o sentir da Sagrada Escritura. Cesário foi de fato um gênio, pouco conhecido, pois a sua humildade não dava espaço para publicidades. Ele existiu fisicamente e continua vivo em nossa memória e na majestade de sua obra.
Cesário Procópio dos Mártyres era filho de José Procópio dos Mártyres e dona Emília de São José dos Mártyres. Nasceu em 26 de fevereiro de 1884 na propriedade de seus pais entre Penedo e Ponta Mofina. Ainda criança já demonstrava pendores pela arte de esculpir, pois, usando a casca da Cajazeira ir esculpindo bonecos. Não estava destinado ao serviço da roça, um nobre destino o aguardava: ser escultor.
No dia 31 de janeiro de 1898, Cesário já residia em Penedo e entrou para a oficina do Mestre Júlio Phidias, situada na Praça Jácome Calheiros, antigo Largo de São Gonçalo do Amarante, depois Praça Valentim Rocio.
O seu progresso foi rápido em assimilar os ensinamentos do Mestre Phidias. Diante do que acontecia com Cesário, o seu irmão que residia na capital federal, José Procópio dos Mártyres, enviou todo o material para que ele montasse sua oficina que foi na Rua 7 de Setembro, antiga Rua do Convento, nos baixos de um velho sobrado. Isso aconteceu em 1904, todavia, Cesário continuou a trabalhar com o seu Mestre Júlio Phidias até 1910.
Cesário em sua mocidade foi atuante na sociedade penedense. Chegou a ser membro do Clube Carnavalesco Agonia, pertenceu à Sociedade R. F. Flor da Mocidade Penedense e do Montepio dos Artistas. Era um jovem elegante e não deixava o fraque e a cartola nos encontros sociais.
O Cesário que conheci e passei a admirar era muito diferente do jovem. O uso do fraque e da cartola cedeu lugar a vestes humildes, a postura de asceta, ao andar firme, meio inclinado em um viver absorto na contemplação de Deus. Cesário foi um artista e um santo. Não temo fazer essa afirmativa.
Em 1929 Cesário recebeu encomendas da Casa Luneta de Ouro, do Rio de Janeiro. Prontas, foram enviadas e bem aceitas, tendo como resultado um convite para se deslocar para o Rio de Janeiro. No dia 12 de Março de 1929, Cesário embarcou no navio Lins de Vasconcelos, saindo do porto de Penedo com destino ao Rio de janeiro. Lá residiu no bairro de São Cristóvão, juntamente com os familiares do mestre marceneiro, também penedense, Gerson Espinheira. Foi trabalhar na Rua do Arcos, conseguindo lugar para seu filho José Vécio. Ali, Cesário fez várias obras de escultura na madeira, destacando-se São João Evangelista que se encontra em uma igreja no bairro de Botafogo. Essa imagem foi exposta em vitrine da loja A Luneta de Ouro na Rua do Ouvidor. Um fato muito revoltou ao Mestre que, mesmo sendo um homem de virtudes, vez por outra deixava extravasar o seu temperamento colérico. Os termos do cartão que foi posto no pedestral da escultura revoltou ao nosso Cesário: “ Escultura feita por escultor alagoano”. Cesário não podia permanecer no Rio de Janeiro. E certa feira ele me segredou: “ …voltei, pois a minha arte não podia ser empregada para pintar apenas imagens industrializadas em gesso.” Cesário era um escultor fiel a uma escola Barroca. O seu estilo inspirado na gramática Luso-Brasileira não aceitava a deturpação de seu potencial criativo. Cesário era um gênio. Ele foi, afirmo, o Aleijadinho Penedense”
Cesário volta para Penedo. Aqui, ele deixara um discípulo que soube beber na grandeza de sua arte os princípios que o fizeram, também,um grande escultor e pintor: Mestre Antonio Pedro dos Santos. Esse notável ”artesão” que assimilou o estilo do Mestre em sua linha barroca é uma glória para Penedo. Todavia, faço uma distinção entre Cesário e o meu amigo Mestre Antonio Pedro. Cesário não foi apenas um escultor genial, ele teve o poder de criar tipos escultóricos, como é o caso do Bom Jesus dos Navegantes, imprimindo-lhes toda a pujança de seu poder de criatividade. Antonio Pedro é um grande escultor, mas, ao nosso ver ele parou como um fiel copista, onde entra a rara habilidade de suas mãos geniais em esculpir, panejar e estofar. Não conheço uma obra de escultura de sua lavra que traga a marca de seu potencial criador.
São dois grandes mestres, dois gênios que merecem nosso respeito e carinho, porém, entre os dois existem diferenças. O mestre Cesário e seu discípulo Antonio Pedro construíram em Penedo uma “civilização artesanal” dentro da linha do estilo da arte Luso-Brasileira.
Falamos que Cesário criou tipos. Já em nosso modesto trabalho – História do Penedo – publicado em 1974, fizemos uma homenagem ao Mestre Cesário Procópio dos Mártyres. São inúmeras as obras de Cesário, todavia, o Bom Jesus dos Navegantes tem uma história.
A Festa dos Navegantes era feita na igreja franciscana de Nossa Senhora dos Anjos. A imagem que saía em procissão era o cristo Agonizante que se encontra na sacristia do Convento. Em 1914 foi feita a última festa no convento, pois, ao recolher da procissão, o superior decidiu que não mais permitiria a festa no convento. O Senhor Antonio José dos Santos, conhecido por Antonio Peixe-Boi, aflito, procurou o Mestre Cesário e pediu que esculpisse uma imagem para as procissões. O Mestre aceitou o desafio e com espírito muito ligado aos fatos das Sagradas Escrituras aliado ao seu poder de criatividade esboçou o tipo de imagem. Surgiu essa obras maravilhosa que é o Bom Jesus dos Navegantes.
No entanto, houve um acontecimento bem interessante. Faltava a madeira. Cesário, muito compenetrado com a sua obra andava à procura de um pau que se prestasse para esculpir a imagem. Visitando seu amigo Mestre Manoel Temístocles, marceneiro, encontrou a madeira ideal. Tirou um pedaço e esculpiu a monumental obra que é o Bom Jesus dos Navegantes todo inspirado na realidade bíblica. Todavia, aquela madeira estava destinada pelo Mestre Temístocles para fazer um “cavalinho”, ou seja, um carrossel. Daí em diante acontecia o mais interessante: o Mestre Temístocles, ao encontrar Cesário, dizia: “você fez o Bom Jesus com a madeira do meu cavalinho, logo sua imagem é irmã do meu cavalinho”, no que Cesário, homem de fé, formação religiosa profunda, respondia: “não, a imagem do Bom Jesus dos Navegantes é feita de um pedaço de cedro que serviu para fazer o seu cavalinho”.
O fato é que a escultura é de uma beleza encantadora, cujas linhas anatômicas assumem uma total perfeição. Foi concluída em 1915.
Cesário foi um gênio. Basta contemplarmos suas esculturas. São várias, entre elas destacam-se: Bom Jesus dos Navegantes de Penedo, Neópolis, Piaçabuçu, Própria, Pontal da Barra, Jaraguá. Senhor Morto e Senhora Divina Pastora de Junqueiro, Senhor Morto de Neópolis, São Miguel Arcanjo que se encontra na Igreja das Correntes de Penedo. Os crucifixos de laranjeira do Convento de Penedo e tantas outras escultura espalhadas por esse Brasil.
No dia 5 de janeiro de 1956 faleceu esse notável gênio. Compareci ao seu sepultamento. Morria o Mestre. Desaparecia o “Aleijadinho Penedense”. Permanecem a suas obras. Em janeiro de 1915 surgiu a maior criação do seu cinzel: Bom Jesus dos Navegantes. Em janeiro de 1956, Cesário, como um santo, entra para a eternidade. Nossa homenagem ao escultor e gênio. ”

Nota: Esse texto foi escrito pelo historiador penedense, Professor Ernani Mero, em folder produzido pelo Governo Guilherme Palmeira para homenagear o escultor Cesário Procópio dos Mártyres na Festa do Bom Jesus dos Navegantes de Penedo, em 1980, gentilmente autorizado por seu filho Carlos Méro.

1 comentário 6 de Janeiro de 2007 às 10:48 Martha Martyres

Bom Jesus dos Navegantes

No segundo domingo de janeiro, dia 14, vamos acordar ao som dos acordes das Bandas de Pífano. É a festa do Bom Jesus dos Navegantes!
É dia de rever os parentes distantes, os amigos separados pelo cotidiano de cada vida.
É dia de reunir a família, de mesa farta, de cheiro de bolo quentinho, do sabor inigualável dos barquinhos de amendoim, dos rolete de cana, da paçoca, da roda gigante…
Dia de Festa do Bom Jesus dos Navegantes é dia de usar roupa nova e sapatos que, se fizerem calos, serão pendurados nos dedos, sem pudor e constrangimento porque o que vale é acompanhar a procissão terrestre e fluvial e pedir benção ao santo.
Quando as águas mornas do Rio São Francisco ainda dormem e a névoa da madrugada espalha seu esbranquiçado na moldura da paisagem, homens, mulheres e crianças se aboletam nas canoas enfeitadas com suas roupas de festa e o coração saltitando na garganta.
É hora de ir a Penedo e disputar, palmo a palmo, na multidão, todos os encantos que a cidade oferece.
Os ambulantes coloridos colocam á disposição dos fiéis os mais diversos produtos. Quer o óculos para se proteger do sol? Tem. Quer um terço para rezar e pedir proteção? Também tem! Quer um brinco, uma pulseira, uma canga de praia? O ambulante oferece. E se você não trouxe a comida, não se “avexe”. Tem macaxeira com carne do sol. Tem muqueca de peixe, camarão, jacaré, rabada e mocotó!
Os grupos folclóricos espalham-se, as rodas de Capoeira, ao som do berimbau, trazem gestos de um primitivo instinto de defesa, uma mistura de dança e luta para lembrar nossas origens e nossa força. No ar, há um odor azedo de suor, de cachaça e uma mistura das frutas da época.
Só quem nasceu por aqui é capaz de ver e sentir, de forma plena, o entusiasmo, a fé e a capacidade criadora do povo beradeiro nesse momento soberbo. É uma fé cheia de vitalidade e pureza!
Passam-se os anos, modificam-se as tradições, mas o povo do Baixo São Francisco, em sua plenitude, exalta a cada semana de janeiro o seu Bom Jesus dos Navegantes que em tudo manda e rege como também rege e manda nas águas do Velho Chico.
A festa do Bom Jesus dos Navegantes o tempo não alterou e o progresso não arrefeceu.
Não pode haver espetáculo mais belo que esse desfile de dezenas de barcos acompanhando o cortejo.
Das muradas da cidade, do cais, da beira do rio, das ilhas, de toda parte a população vai ver a procissão do santo protetor dos navegantes.
Durante todo o ano ele fica na Igreja de Santa Cruz, a pequena capela que foi edificada na comunidade no ano de 1818.
O escultor da imagem do Bom Jesus dos Navegantes, Cesário Procópio dos Mártyres, contava que no local da capela havia um terreiro onde se realizavam danças diabólicas. Certo dia, um garoto que assistia ao evento viu um homem que dançava com pés de cabra. Houve pânico na população e o terreiro foi destruído. Em seu lugar, foi edificada a atual capela que data do ano de 1907. É lá, no altar principal, que fica o Bom Jesus dos Navegantes.
Na segunda semana de janeiro a comunidade de Santa Cruz se transforma. É quando acontece o tríduo religioso, a quermesse, a festa.
No domingo à tarde, debaixo de um estrondoso espetáculo de fogos de artifício, o santo sai da igreja em seu andor ricamente decorado para “pegar a lancha”, como diz o homem da beira do rio. No percurso da igreja ao porto, o povo pára. Ergue os olhos para o Bom Jesus, pede sua benção, faz o sinal da cruz.
Os mais variados sons silenciam em respeito à passagem do santo. Os homens tiram os chapéus e se curvam em reverência, as mulheres põem a mão sobre o coração e pedem proteção para suas famílias.
Quando o andor com o santo vem se aproximando do porto, a multidão avança, corre para as balsas, os barcos, as lanchas. Entra na água e disputa entre gritos e empurrões, um espaço, o privilégio de entrar na embarcação que levará a imagem do Bom Jesus dos Navegantes.
Nada os detém. Nem a comissão, nem o prefeito, nem os sacerdotes, nem a polícia. Nada consegue manter a ordem desejada. É o delírio e a força da fé. Quem não consegue embarcar, chora, acena, desmaia, mas não arreda pé da rampa.
As embarcações apitam e começa a procissão. Velas brancas, azuis, vermelhas, multicoloridas se levantam para os céus e aos poucos o cortejo toma forma singrando serenamente as águas do rio.
Em seu barco, mão esquerda erguida abençoando os navegantes, o Bom Jesus comanda a festa.
Levantam-se os cânticos, toca a Banda de Música da Sociedade Musical Penedense. Nos barcos que acompanham a procissão, vez ou outra se aumenta o volume do axé, do samba, do brega. Ouvem-se pandeiros, cavaquinhos, violas, palmas. A fé e o desejo de saudar o Bom Jesus independe de gêneros musicais. Não há desrespeito. Há a certeza de que participando da procissão, Bom Jesus há de proteger!
Ele, que abriga os navegadores das tempestades, os pescadores dos perigos do Nego D´água e que, nos dias sinistros conduz a todos que foram pegos desprevenidos ao porto da salvação, compreende que o Pai deu a alegria ao homem para ele expressar seu agradecimento pela satisfação de estar vivo. E o povo faz chegar seu agradecimento a Deus pela música, pelas suas cantigas e pela sua alegria.
Ao longo do trajeto, nos fortes espalhados pelas margens do Velho Chico, Bom Jesus é saudado com foguetório e os barcos acionam suas sirenes.
Enquanto isso, na rampa do porto de Penedo, na balaustrada,na Rocheira, o povo aguarda a chegada da procissão, do santo protetor.
O cortejo fluvial se aproxima, o sol vai-se escondendo através das montanhas sergipanas, as luzes se acendem, explodem os rojões e o povo começa a rezar.
“Livra-nos, Senhor dos Navegantes, das práticas políticas eleitoreiras, livra-nos do descaso, da falta de compromisso e dos falsos profetas. Livra-nos da fome, da sede e da seca que assola o homem barranqueiro do São Francisco pela falta de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento do Vale do Rio da Integração Nacional. Livra-nos de um projeto de imposição de transferência de nossa água que ao invés de servir para matar a sede dos nossos irmãos e dos animais, como faria São Francisco, o Santo, vai servir de mote para discursos de campanha eleitoral objetivando a perpetuação no poder.”
É festa do Bom Jesus dos Navegantes. Vale à pena ver, ouvir, sentir, acompanhar a procissão ouvindo seus cânticos, rio afora, e ser abençoado pelo Bom Jesus que comanda seu povo, protege e resguarda.

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21 comentários 4 de Janeiro de 2007 às 18:16 Martha Martyres

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